A fé sem obras: análise entre a falsa antinomia entre a Carta aos Efésios e a Carta de Tiago
Meu nome é Erick Labanca, sou graduando em Direito, escrevo artigos de cunho filosófico, teológico e jurídico.

Porque o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna, por Cristo Jesus nosso Senhor. (Romanos 6, 23)
I. Introdução:
É possível a salvação exclusivamente pela fé, sem as obras? Tema que gerou polêmica entre os cristãos, com a reforma protestante, liderada por Martinho Lutero, defendendo que a fé, exclusivamente, salva o homem. Em contrapartida, o catolicismo se opôs e defendeu o contrário: as obras juntamente com a fé levam à salvação.
Os protestantes defendem seu argumento conforme se depreende da Carta aos Efésios: “Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie (Efésios 2:8-9)”. Contudo, é válido mencionar o que diz a Carta de Tiago: “Porque, assim como o corpo sem o espírito está morto, assim também a fé sem obras é morta (Tiago 2:26)”.
Logo, é possível afirmar que há uma antinomia em relação às duas epístolas dos apóstolos? Questão complexa como esta merece ser analisada com cautela, sem, todavia, atacar os protestantes, mas fazendo uma análise doutrinária da fé católica.
II. A falsa antinomia entre as Cartas aos Efésios e de Tiago:
Primeiramente, é importante destacar que quando o apóstolo Paulo diz que seremos salvos pela graça, mediante a fé, e que isso não vem das obras humanas, deve-se ter cautela. Afirmando isso, Paulo faz menção à graça de Deus, um dom gratuito, que é concedido pelo poder do Espírito Santo. O ser humano responde a graça pela fé em Jesus Cristo, e Ele revela o Pai. Assim, as obras das quais o apóstolo aduz são os méritos próprios do ser humano e não em relação às boas obras.
Ora, Santo Agostinho, em seu Tratado sobre A Graça, afirma que sem ela, não é possível alcançar a santidade. Logo, Deus concede a graça gratuitamente e o homem responde com a fé e, por conseguinte, com as obras.
III. A fé sem obras: a teoria sem a prática:
Já na Carta de Tiago, este afirma que a fé sem obras é morta. O que ele diz é: somente a fé, por si mesma, não salva, mas é dever do cristão pôr em prática as virtudes, como a caridade e o amor ao próximo.
Os mandamentos mais importantes, conforme o Evangelho segundo Mateus, são: amar a Deus acima de todas as coisas e a seu próximo como a ti mesmo. Logo, praticando a caridade – auxílio para com o seu par ou com esmolas – põe-se em prática a fé por meio das obras.
Ter fé, ou seja, apenas crer em Deus não te leva à salvação, mas o que te leva é o crer e o agir retamente. O cristão não apenas acredita em Cristo, porém coloca também em prática os seus ensinamentos.
IV. Conclusão:
Portanto, é possível concluir que não há contradição entre as duas epístolas. Contudo, o que há é uma má interpretação da Carta aos Efésios por parte de alguns protestantes. Na realidade, ambas estão em concordância, pois São Paulo apóstolo afirma que sem graça, dom gratuito, não é possível responder com a fé e cooperar com o referido dom. Portanto, o ser humano não consegue, por mérito próprio, alcançar a salvação sem o Espírito Santo e o Filho a fim de chegar ao Pai.
Já a Carta de Tiago diz que a fé sem obras é morta, significando que a teoria sem a prática não é de grande valia, pois apenas a fé em Jesus Cristo não basta para a salvação. A graça, a fé e as obras são um conjunto: sem a graça, não é possível responder com a fé. Assim como o corpo é morto sem o espírito, a fé sem obras é morta. Desse modo, a suposta antinomia entre fé e obras é equivocada, tendo em vista que as epístolas não se contradizem, mas se complementam. Separando essas realidades, tem-se o empobrecimento da fé cristã.