Formação e Doutrina

A minha única crítica aos tradicionalistas

Embora defenda corretamente a Tradição, a Missa de sempre e a crítica ao modernismo, parte do meio tradicionalista católico assimilou pressupostos do liberalismo econômico, afastando-se da Doutrina Social da Igreja e da realidade concreta das famílias e dos trabalhadores. O resultado é um tradicionalismo por vezes elitista, esteticista e socialmente indiferente, incapaz de compreender que a restauração católica também exige uma ordem econômica, política e comunitária submetida à justiça, ao bem comum e à realeza social de Cristo.

EPor Eduardo Carvalho
5 de jul. de 20262 Visitas
A minha única crítica aos tradicionalistas

Uma crítica legítima que se pode fazer aos meios tradicionalistas — e que faço em diversas ocasiões, embora eu mesmo seja, digamos, parte desse meio — é a existência de certo elitismo, de um afastamento em relação à realidade social para além de determinados núcleos e de uma preocupação quase inexistente com o comunitarismo católico. Há, inclusive, em alguns setores, certo desprezo pela Doutrina Social da Igreja, sobretudo quando ela se opõe ao liberalismo econômico.

Isso se torna evidente, por exemplo, na Rerum Novarum, quando Leão XIII enfrenta diretamente o argumento liberal segundo o qual, se patrão e empregado aceitaram livremente determinado salário, o Estado nada mais teria a dizer sobre essa relação: “Acima da sua livre vontade está uma lei de justiça natural”. Diante dos abusos patronais e das condições degradantes de trabalho, Leão XIII também declara: “É absolutamente necessário aplicar, dentro de certos limites, a força e a autoridade das leis”.

Da mesma forma, Pio XI afirma, na Quadragesimo Anno: “A reta ordem da economia não pode nascer da livre concorrência de forças”. Na Divini Redemptoris, acrescenta: “Não se pode dizer que se satisfez à justiça social se os operários não têm assegurada a sua própria sustentação”. Há ainda o princípio da destinação universal dos bens, que impõe limites ao direito de propriedade privada, uma vez que este é um direito derivado: em última instância, a terra e os bens da criação pertencem a Deus e devem servir ao bem comum.

Apesar disso, alguns tradicionalistas fazem uma distinção tipicamente direitista entre o liberalismo religioso e moral, que rejeitam, e o liberalismo econômico, que aceitam ou tratam com excessiva benevolência. Como o Concílio Vaticano II e, posteriormente, a Teologia da Libertação recorreram com frequência a expressões como “justiça social”, “direitos trabalhistas” e “opção pelos pobres”, passou-se a desconfiar de tudo aquilo que contenha os termos “social”, “justiça social”, “direitos dos trabalhadores” ou “opção pelos pobres”.

Combate-se corretamente a instrumentalização progressista dessas ideias, mas, em certos casos, termina-se por abandonar também a autêntica doutrina social de Leão XIII e Pio XI. Ao rejeitar a deformação modernista, rejeita-se juntamente aquilo que havia de genuinamente católico na preocupação social da Igreja.

Existe então essa assimilação sociológica à direita política contemporânea. Muitos tradicionalistas, especialmente em países como os Estados Unidos e o Brasil, chegam à Tradição por meio do conservadorismo político, do anticomunismo ou da reação cultural. Abandonam o liberalismo religioso, mas conservam pressupostos econômicos e políticos liberais: a propriedade é compreendida quase como um direito absoluto; o mercado é tratado como uma ordem espontânea autossuficiente; qualquer intervenção estatal é identificada com o socialismo; os sindicatos são vistos necessariamente como instrumentos comunistas; a desigualdade econômica é considerada uma questão moralmente indiferente; a caridade é reduzida à iniciativa individual; e a sociedade é pensada como uma simples reunião de famílias privadas, e não como um organismo dotado de instituições, deveres e finalidades próprias.

Disso resulta um tradicionalista que rejeita Locke em matéria religiosa, mas raciocina como Locke em matéria econômica; que condena a Revolução Francesa, mas aceita como natural a sociedade individualista criada por ela.

Alguns chegam a afirmar que a Igreja não deve tratar dessas questões, pois o importante seria exclusivamente a salvação das almas, enquanto os problemas sociais e econômicos não pertenceriam à sua missão ou seriam inteiramente secundários. É evidente que a salvação das almas possui primazia sobre os bens temporais. O problema está em transformar essa primazia em exclusão, como se a ordem econômica constituísse uma esfera imune ao juízo moral da Igreja.

Essa concepção parece supor que a Igreja, Corpo Místico de Cristo, não teria poder, autoridade ou necessidade de santificar especificamente a vida econômica e social. Nessa perspectiva, o combate à usura, por exemplo, deixaria de ser assunto da Igreja; da mesma maneira, as condições de trabalho, a distribuição dos bens, a organização econômica, a propriedade e as obrigações dos governantes seriam questões estranhas à religião.

Ora, isso se aproxima de uma aceitação prática da separação entre religião e Estado, entre sociedade política e Igreja. Trata-se de uma espécie de laicismo social prático e, pior ainda, de uma separação entre a Igreja e a própria sociedade: um afastamento completo da ordem temporal, sem que sejam oferecidas respostas católicas às necessidades sociais concretas.

Infelizmente, o meio tradicionalista conserva certos vícios burgueses que o colocam, por vezes, em dissenso com a realidade social. A própria pregação para que os católicos tenham muitos filhos frequentemente ignora as circunstâncias materiais em que as famílias vivem: a precariedade do trabalho, as jornadas exaustivas, a ausência de terra, os baixos salários e a insegurança econômica. Limita-se a apontar o dedo e a ordenar: “Tenha filhos, constitua uma família numerosíssima e Deus proverá”. Trata-se de uma afirmação temerária quando desacompanhada de qualquer preocupação com as condições sociais necessárias à formação e à manutenção das famílias.

Se os católicos desejam famílias numerosas, precisam também defender uma ordem social que torne possível sustentá-las dignamente. Não basta exaltar abstratamente a família enquanto se aceita uma economia que mantém os pais ausentes de casa durante quase todo o dia, torna a moradia inacessível, precariza o trabalho e transforma os filhos em um peso economicamente insuportável.

O próprio esteticismo presente em determinados grupos, com uma preocupação excessiva com vestimentas, símbolos, cerimônias e aparências exteriores, também são parte desse dissenso. A beleza litúrgica, a solenidade e os sinais visíveis da tradição são bens verdadeiros; o problema começa quando a Tradição é reduzida a uma experiência estética para pequenos círculos, burguesa até.

Essa é a minha crítica aos grupos tradicionalistas. Ela não se dirige ao zelo pela Tradição católica, pela Missa de sempre ou à rejeição de um concílio que contém proposições contraditórias, modernistas, liberais e opostas ao Magistério perene da Igreja. Em tudo isso, estão corretíssimos.

Minha crítica se dirige, antes, à incoerência de se combater o liberalismo na religião e, ao mesmo tempo, aceitá-lo na economia; de se defender a realeza social de Cristo, mas excluir do seu reinado as relações de trabalho, a propriedade, a distribuição dos bens e a organização da sociedade; de se condenar o laicismo do Estado enquanto se pratica, silenciosamente, um laicismo econômico e social.

A restauração da Tradição católica não pode limitar-se à liturgia, embora a liturgia ocupe um lugar central. Ela exige também a restauração da concepção católica da sociedade, da autoridade, da propriedade, do trabalho, da justiça, da solidariedade e do bem comum. Uma Tradição que não se preocupa com a ordem social corre o risco de se transformar em refúgio estético de uma pequena elite, quando deveria ser princípio vivo de reconstrução da Cristandade.