Cultura

A “Segunda Navegação”: a descoberta fundamental da filosofia ocidental

A grande descoberta da filosofia ocidental foi realizada por Platão. Neste breve artigo, procurarei expor, de modo sintético, em que consiste esse método e por que ele representa um momento decisivo na história da filosofia.

JPor João Jorge Neto
10 de mar. de 202639 Visitas
A “Segunda Navegação”: a descoberta fundamental da filosofia ocidental

…queres que te exponha, ó Cebes, a segunda navegação que empreendi para ir em busca dessa causa, isto é, da verdadeira causa? “Quero, muito”, respondeu (PLATÃO, Fédon, 99 C–D).

A noção de “segunda navegação” constitui um dos momentos conceituais mais decisivos da filosofia de Platão e representa uma virada metodológica fundamental na história da filosofia ocidental. Essa descoberta moldou profundamente o desenvolvimento posterior da filosofia, pois inaugura o método propriamente metafísico e conduz, pela primeira vez na história do pensamento ocidental, à afirmação explícita de uma realidade supra-sensível como fundamento do sensível.

A metáfora da “segunda navegação” aparece no diálogo Fédon (96 A–102 A) e possui origem náutica. Na navegação antiga, quando o vento cessava e as velas já não eram capazes de impulsionar o navio, os marinheiros recorriam aos remos para continuar a viagem. Platão utiliza essa imagem para simbolizar a passagem de um tipo de investigação filosófica para outro, isto é, da investigação naturalista para a investigação das causas inteligíveis. Como observa Giovanni Reale, a metáfora indica o momento em que a investigação filosófica abandona o método dos filósofos da φύσις (phýsis) e orienta-se para a descoberta do nível supra-sensível da realidade (REALE, 2004, p.108).

No próprio Fédon, Platão coloca na boca de Sócrates um breve relato autobiográfico de sua formação intelectual. Sócrates afirma que, desde jovem, dedicou-se intensamente à investigação das causas da natureza, procurando compreender as razões da geração e da corrupção das coisas. Em Fédon 96 A 8, ele declara que buscava descobrir por que algo nasce, por que perece e por que existe tal como existe. Nesse contexto, relata ter estudado as doutrinas dos filósofos da φύσις, que procuravam explicar a totalidade do real a partir de princípios naturais. Essa passagem é filosoficamente significativa, pois revela que a crítica platônica ao naturalismo pré-socrático não nasce de uma rejeição externa, mas de uma experiência intelectual direta com esse modo de investigação.

Entre essas doutrinas, a filosofia de Anaxágoras pareceu inicialmente oferecer uma solução promissora. Ao introduzir o conceito de νοῦς (noûs), isto é, de Inteligência, como princípio ordenador do cosmos, Anaxágoras parecia ter superado o mecanicismo predominante entre os filósofos anteriores. Sócrates relata ter acolhido essa doutrina com grande entusiasmo, pois acreditava que a introdução do νοῦς permitiria explicar o mundo a partir de razões propriamente racionais e finalísticas. Se uma Inteligência governa o universo, seria razoável supor que todas as coisas existem da maneira como existem porque assim é melhor, isto é, porque correspondem a uma ordem racional fundada no que é mais adequado.

Entretanto, a leitura efetiva da obra de Anaxágoras produziu em Sócrates profunda decepção filosófica. Embora o filósofo jônico tenha introduzido o νοῦς como princípio supremo do cosmos, ele não o utiliza como causa explicativa efetiva dos fenômenos naturais. Em vez disso, continua explicando a geração e a corrupção das coisas a partir de causas físicas, como processos de mistura e separação de elementos materiais. Desse modo, o νοῦς aparece apenas como um princípio inicial que põe o cosmos em movimento, enquanto a explicação concreta dos fenômenos permanece subordinada a mecanismos físico-materiais. Para Sócrates, isso equivale a mencionar a Inteligência apenas nominalmente, sem empregá-la como verdadeiro princípio explicativo da ordem do mundo.

Nesse ponto torna-se evidente a insuficiência metodológica do naturalismo pré-socrático. As explicações físicas podem descrever as condições materiais de um fenômeno, mas não alcançam sua causa propriamente dita. Platão ilustra essa distinção por meio de um exemplo célebre: afirmar que alguém está sentado em determinado lugar porque seus ossos e músculos se encontram dispostos de certo modo descreve apenas a condição material da ação, mas não explica a razão pela qual ele decidiu sentar-se ali. A verdadeira causa não reside na disposição física dos membros, mas na decisão racional que determina a ação. As explicações físicas, portanto, indicam apenas as condições materiais do fenômeno, não sua causa verdadeira (Fédon, 96 A - 100 A 7).

Diante dessa dificuldade, torna-se necessário adotar um novo método de investigação filosófica. A chamada segunda navegação consiste precisamente nessa mudança metodológica. Em vez de buscar as causas últimas das coisas no plano sensível e material, o pensamento deve dirigir-se ao domínio do inteligível. A investigação passa então a concentrar-se naquilo que torna possível a inteligibilidade das coisas sensíveis. É nesse contexto que surge a doutrina das ἰδέαι (idéai), isto é, das Formas, concebidas como realidades inteligíveis que fundamentam ontologicamente o mundo sensível. Assim, algo é belo porque participa da Beleza em si, algo é justo porque participa da Justiça em si. As ἰδέαι constituem, portanto, causas propriamente inteligíveis, capazes de explicar não apenas como as coisas se apresentam, mas por que são aquilo que são (Fédon, 99 D 4 - 100 A 7).

Neste sentido, a segunda navegação representa uma transformação estrutural no modo de fazer filosofia. Ao reconhecer a insuficiência das explicações puramente físicas e ao afirmar a primazia das causas inteligíveis, Platão inaugura uma nova dimensão da investigação filosófica, posteriormente denominada metafísica. A filosofia deixa de limitar-se ao estudo dos processos naturais e passa a investigar os princípios últimos que fundamentam a realidade e tornam possível sua compreensão racional. A segunda navegação constitui, assim, um dos momentos fundadores da tradição filosófica ocidental, pois estabelece a necessidade de explicar o sensível a partir do inteligível, perspectiva que influenciará profundamente pensadores posteriores como Aristóteles e toda a tradição metafísica subsequente (REALE, 2004, pp. 112-113).

A investigação inaugurada pela segunda navegação não se esgota, contudo, na descoberta das ἰδέαι (idéai). Como observa Giovanni Reale, o pensamento de Platão apresenta um desenvolvimento ulterior, no qual a explicação metafísica alcança um nível ainda mais profundo. A primeira etapa da segunda navegação consiste na descoberta das ἰδέαι como causas inteligíveis das coisas sensíveis, isto é, como realidades supra-sensíveis que fundamentam a determinação ontológica dos entes. Entretanto, essa investigação conduz necessariamente a um novo problema, pois torna-se preciso explicar também o fundamento último das próprias ἰδέαι. Surge assim uma segunda etapa da investigação metafísica, voltada para a descoberta dos princípios supremos da realidade, os ἀρχαί (archai). Segundo a interpretação de Reale, Platão reconhece dois princípios fundamentais, o Ἕν (Hén), princípio de unidade e determinação, e a Δυὰς ἀόριστος (Dyás aóristos), princípio de indeterminação e multiplicidade. Desse modo, a segunda navegação revela uma estrutura filosófica em dois níveis, primeiro a descoberta das Ideias como causas inteligíveis do sensível, depois a investigação dos princípios supremos que fundamentam o próprio mundo das Ideias, constituindo assim o núcleo mais profundo da metafísica platônica (REALE, 2004, pp. 113-116).

Por fim, diante da grandeza dessa descoberta e de sua influência decisiva na constituição da metafísica ocidental, causa perplexidade que ainda se repita a afirmação segundo a qual Platão teria causado mais danos à filosofia e à teologia cristã do que as próprias heresias, pois tal juízo revela menos um problema na filosofia platônica do que uma profunda ignorância acerca da história intelectual do Ocidente e do papel estruturante que a metafísica platônica exerceu na formação do pensamento cristão.

:. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:

-PLATÃO. Fédon. Tradução, introdução e notas de Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2011;

-REALE, Giovanni. Para uma nova interpretação de Platão. Tradução de Marcelo Perine. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2004.