Baixa aprovação de Lula não é incoerente com a economia real
Apesar da narrativa oficial e de parte da imprensa de que a economia brasileira estaria “bem”, os dados mostram um quadro muito menos favorável: crescimento fraco, perda de fôlego da atividade, baixa produtividade, indústria enfraquecida, custo de vida ainda elevado, endividamento das famílias em patamar recorde e aumento da carga tributária. Nesse cenário, a baixa aprovação de Lula não é incoerente, mas reflexo direto de uma economia que pode exibir alguns indicadores positivos no papel, enquanto, na vida real, transmite sensação de aperto, estagnação e empobrecimento da classe média.

A ideia de que a baixa aprovação de Lula seria “incompatível” com a economia parte de uma leitura excessivamente superficial dos indicadores. As pesquisas mais recentes mostram desgaste claro do governo: a Quaest apontou, em março, 51% de desaprovação e 44% de aprovação; já a Nexus registrou 44% de avaliação negativa, contra 35% de positiva. Diante disso, o ponto central não é perguntar por que o governo perde apoio “apesar” da economia, mas sim reconhecer que a percepção social faz sentido quando se olha para a economia vivida pelas famílias, e não apenas para manchetes sobre PIB ou desemprego.
É verdade que há indicadores positivos. O desemprego no trimestre encerrado em fevereiro de 2026 ficou em 5,8%, o menor para esse período da série histórica, e o rendimento real habitual chegou a R$ 3.679. A inflação acumulada em 12 meses recuou para 3,81% em fevereiro, e o IPCA-15 de março ficou em 3,90% em 12 meses. Mas isso, por si só, não autoriza a narrativa de prosperidade disseminada por parte do debate público. Inflação menor não apaga anos de corrosão do poder de compra, nem garante sensação de alívio quando serviços continuam caros e alimentos seguem pressionando o orçamento.
O problema é que o crescimento existe, mas em ritmo modesto e com perda de fôlego. O IBGE mostrou que o PIB cresceu 2,3% em 2025, porém o avanço no quarto trimestre foi de apenas 0,1%, com a indústria recuando 0,7% na passagem trimestral. O próprio Banco Central afirma que a atividade doméstica segue em trajetória de moderação e projeta crescimento de só 1,6% para 2026. Além disso, a taxa de investimento ficou em apenas 16,8% do PIB em 2025, abaixo do necessário para sustentar expansão forte e duradoura. Em outras palavras: não se trata de colapso, mas tampouco de uma economia vigorosa.
A fragilidade aparece com ainda mais nitidez na indústria. A produção industrial cresceu só 0,6% em 2025 e terminou o ano ainda 16,3% abaixo do pico de maio de 2011. O IBGE também registrou perda clara de ritmo ao longo do ano, com expansão no primeiro semestre e virtual estagnação no segundo. Já a CNI alertou que o PIB da indústria de transformação caiu 0,2% em 2025, configurando a quinta retração em sete anos — sinal claro de desindustrialização persistente. Some-se a isso o diagnóstico da OCDE de que a produtividade brasileira caiu ao longo da última década, e fica difícil sustentar a tese de uma economia “forte” em bases estruturais.
No bolso, a história é ainda menos favorável. Embora os alimentos tenham subido menos em 2025 do que em 2024, o IBGE mostrou aceleração relevante dos serviços, que fecharam 2025 com alta de 6,01%. Em março de 2026, o IPCA-15 voltou a ser pressionado justamente por alimentos e despesas pessoais: a alimentação no domicílio acelerou para 1,10% no mês, com alta de ovos, leite longa vida, feijão e carnes. Ao mesmo tempo, o orçamento das famílias segue comprimido: em janeiro, 79,5% das famílias estavam endividadas, com 29,7% da renda comprometida, em média, com dívidas; em fevereiro, a CNC reportou novo recorde histórico de endividamento. O Banco Central informou ainda que a dívida das famílias em relação à renda chegou a 49,7% no fim de 2025. Isso ajuda a explicar por que o eleitor pode ouvir que “a economia vai bem” e, ainda assim, sentir que a vida continua apertada.
Quanto à classe média, é preciso fazer uma distinção importante. Em sentido estatístico estrito, a FGV apontou expansão das classes ABC em 2024, não retração. Mas isso não invalida a sensação de compressão social. A própria CNC mostrou, em fevereiro, que o endividamento avançou sobretudo entre famílias de renda mais alta, como forma de manter padrão de consumo sem desmobilizar patrimônio. Ou seja: mais do que “encolhimento” puro e simples na fotografia da renda, o que os dados recentes sugerem é uma classe média menos folgada, mais endividada e mais vulnerável ao custo de vida, aos juros e à carga tributária.
Também pesa a percepção de estrangulamento tributário. A estimativa oficial do Tesouro aponta que a carga tributária bruta do governo geral subiu para 32,32% do PIB em 2024, alta de 2,06 pontos percentuais sobre 2023. E o problema não é só o tamanho, mas a complexidade: o Banco Mundial destaca que o sistema tributário brasileiro é excessivamente complexo, gerando custos administrativos elevados, litígios e distorções econômicas. Quando o cidadão vê imposto alto, serviços caros, crédito caro e pouca melhora estrutural na produtividade, a sensação não é de prosperidade, mas de sufocamento.
Por isso, a baixa aprovação de Lula não é um “mistério” nem uma contradição lógica com a economia. O que há é uma diferença entre indicadores agregados relativamente menos ruins e a realidade concreta de uma economia que cresce pouco, investe pouco, produz com baixa produtividade, mantém a indústria enfraquecida, convive com custo de vida pressionado e cobra caro em tributos. Nessa situação, a desaprovação não desafia os números; ela é, em larga medida, a tradução política deles.