Política

Caso Banco Master: PF prende Daniel Vorcaro, mira suspeita de “infiltração” no BC e CPI trava após habeas corpus — o que mudou entre 2 e 4 de março de 2026

Nos dias 2 a 4 de março de 2026, o Caso Banco Master escalou de uma crise bancária para uma ofensiva policial e institucional de grande porte: a PF deflagrou a 3ª fase da Operação Compliance Zero, voltou a prender Daniel Vorcaro, determinou bloqueios bilionários e aprofundou suspeitas de lavagem de dinheiro, cibercrimes e de uma estrutura de monitoramento/intimidação (“A Turma”). Em paralelo, avançaram indícios de cooptação dentro do Banco Central, com afastamentos e apuração interna, enquanto a CPI do Senado travou após uma sequência de habeas corpus e cancelamentos de depoimentos — deixando o caso cada vez mais concentrado no STF, que julga em 13/03 se mantém a prisão.

EPor Eduardo Carvalho
4 de mar. de 202636 Visitas
Caso Banco Master: PF prende Daniel Vorcaro, mira suspeita de “infiltração” no BC e CPI trava após habeas corpus — o que mudou entre 2 e 4 de março de 2026

Brasília / São Paulo — A crise que levou à liquidação do Banco Master ganhou, nos últimos três dias, um novo patamar: a Polícia Federal deflagrou a 3ª fase da Operação Compliance Zero, prendeu novamente o empresário Daniel Vorcaro e avançou sobre suspeitas de corrupção de servidores do Banco Central, lavagem de dinheiro, cibercrimes e uma estrutura paralela de monitoramento e intimidação contra críticos, jornalistas e pessoas ligadas às apurações. Ao mesmo tempo, o braço político do caso — uma CPI no Senado — passou por cancelamentos sucessivos após decisões de habeas corpus e, por fim, a prisão dos principais convocados na manhã desta quarta-feira (4).

A seguir, os desdobramentos mais relevantes entre 02/03 e 04/03, com bastidores institucionais, o que dizem as decisões e o que ainda está em aberto.

1) 02/03 — CPI marca depoimentos e aponta “organização criminosa” ligada à gestão do Master

Na segunda-feira (2), a CPI do Crime Organizado anunciou que Vorcaro e o cunhado Fabiano Campos Zettel deveriam depor na quarta-feira (4), às 9h, em uma sessão que vinha sendo tratada como a primeira grande tentativa do Senado de “amarrar” responsabilidades políticas e regulatórias no colapso do banco. O requerimento do relator, senador Alessandro Vieira, falava em possível organização criminosa voltada à gestão fraudulenta de instituição financeira.

A própria nota do Senado recuperou um ponto central do enredo: segundo o presidente da CVM, gestores ligados ao Master (e outros agentes do circuito) teriam superdimensionado ativos para sustentar uma aparência de solidez que não existia — um indício relevante para entender por que o caso extrapolou o âmbito bancário e foi parar no STF.


2) 03/03 — CPI cancela reunião com Campos Neto e fundador da Reag; STF entra no centro do “jogo político”

Na terça-feira (3), a CPI cancelou a audiência em que ouviria Roberto Campos Neto (ex-presidente do BC) e João Carlos Falbo Mansur (fundador da Reag Investimentos). O motivo foi duplo:

  • Campos Neto foi dispensado de comparecer por habeas corpus concedido pelo ministro André Mendonça; segundo a CPI, ele sinalizou que estaria disposto a responder por escrito.

  • Mansur, apesar de decisão judicial mantendo a obrigatoriedade do depoimento (mencionada pela CPI como vinculada a despacho do ministro Flávio Dino), não compareceu e alegou, via defesa, questão de prazo — a oitiva foi remarcada sob aviso de condução coercitiva.

O episódio elevou a temperatura institucional: para a CPI, as decisões judiciais passaram a criar um cenário em que o investigado “escolhe” quando e como fala; para críticos da comissão, o Senado estaria forçando uma investigação paralela em temas sensíveis (sigilos e prerrogativas). Esse conflito explodiria no dia seguinte.


3) 04/03 — PF deflagra a 3ª fase, prende Vorcaro e bloqueia valores bilionários

Prisões, buscas e bloqueio de bens

Na manhã de quarta (4), a PF cumpriu nova rodada de medidas autorizadas no âmbito da Compliance Zero. A operação levou à prisão preventiva de Vorcaro e, segundo reportagens, incluiu também prisões de outros investigados ligados ao núcleo de “intimidação” e ao círculo próximo do empresário.

Um dos dados mais pesados do dia foi o tamanho do bloqueio patrimonial: autoridades determinaram o congelamento de bens e valores que pode chegar a R$ 22 bilhões.

O “dinheiro escondido”: R$ 2,2 bilhões em conta do pai, numa DTVM ligada à Reag

A decisão atribuída ao ministro André Mendonça descreveu um achado que virou símbolo da escalada: a PF bloqueou pouco mais de R$ 2,2 bilhões que estariam ocultados em uma conta no nome do pai de Vorcaro, mantida na CBSF DTVM, “conhecida como Reag”. O despacho cita que a descoberta ocorreu em 14 de janeiro — e aponta continuidade de condutas mesmo após uma prisão anterior do empresário, em 28 de novembro.

O texto também conecta esse movimento ao custo sistêmico do colapso: enquanto esses valores eram escondidos, o FGC teria sido forçado a intervir diante de um rombo descrito na decisão como próximo de R$ 40 bilhões.

O “modelo” que sustentou o Master antes da liquidação

A mesma reconstrução judicial aponta um padrão: captação agressiva via CDBs com rentabilidade acima do mercado e direcionamento para operações de risco e ativos de baixa liquidez, parte deles ligados ao próprio conglomerado — o tipo de engrenagem que, quando trava, costuma contaminar credores e investidores.


4) O núcleo mais explosivo: “A Turma”, intimidação, consultas em sistemas restritos e cibercrime

O componente que justificou, segundo o noticiário, a volta de Vorcaro à prisão foi o risco de obstrução: mensagens extraídas do celular apreendido na primeira fase indicariam uma estrutura informal chamada “A Turma”, voltada à vigilância, intimidação e obtenção de dados de pessoas vistas como obstáculos.

Essas mensagens incluem relatos de:

  • ordens para monitorar críticos e “levantar tudo” sobre alvos;

  • referência a consulta de dados em sistemas restritos de órgãos públicos (inclusive PF e MP, segundo a narrativa judicial citada);

  • articulação para derrubar conteúdos e perfis digitais simulando pedidos “institucionais”;

  • e, no ponto mais sensível, a menção a um plano de agressão contra o jornalista Lauro Jardim, tratado no noticiário como gatilho de repúdio de entidades de imprensa.


5) A frente regulatória: BC confirma indícios internos e afasta servidor e ex-diretor

Outro desdobramento decisivo do dia 4 foi o aprofundamento da suspeita de cooptação dentro do Banco Central.

Segundo relato publicado, o BC afirmou que indícios de vantagens indevidas envolvendo Paulo Sérgio Neves de Souza (ex-diretor de Fiscalização) e o servidor Belline Santana foram encontrados em revisão interna ligada a processos de fiscalização e liquidação do Master; o órgão diz que afastou cautelarmente os envolvidos, suspendeu acessos e comunicou a PF, abrindo procedimentos disciplinares.

O noticiário também descreve a suspeita de que eles teriam atuado como “consultores informais” de Vorcaro dentro do regulador — inclusive com troca prévia de minutas e orientação sobre temas sensíveis.


6) O tabuleiro político: CPI cancela oitivas (de novo) e cresce atrito com decisões do STF

Com as prisões da manhã de quarta (4), a CPI cancelou as oitivas de Vorcaro e Zettel. O detalhe é que, segundo o Senado, o presidente da comissão já havia cancelado a reunião antes mesmo de saber das prisões, porque havia habeas corpus dispensando os dois de comparecer. A comissão reagiu dizendo que esse tipo de decisão gera “inversão de papéis”.

No mesmo dia, a Rádio Senado registrou críticas duras: o senador Sergio Moro elogiou a decisão que determinou a nova prisão, enquanto Alessandro Vieira atacou a suspensão, por Gilmar Mendes, da quebra de sigilo de uma empresa ligada à família do ministro Dias Toffoli, tema que a CPI pretende levar ao plenário do STF.


7) O que acontece agora: julgamento na 2ª Turma e transferência para presídio estadual

Dois movimentos fecham o ciclo das últimas 72 horas:

  1. A 2ª Turma do STF marcou para sexta-feira, 13/03, a análise colegiada da decisão de Mendonça que decretou a prisão de Vorcaro. A composição inclui, além do relator, Gilmar Mendes, Luiz Fux, Nunes Marques e Dias Toffoli — que deixou a relatoria do caso em fevereiro após menções em mensagens e por vínculo com empreendimento citado no noticiário.

  2. Mendonça autorizou a transferência de Vorcaro para um presídio estadual em São Paulo, após pedido da PF, que alegou falta de estrutura na superintendência para custódia prolongada. A Agência Brasil também registrou a nota da defesa negando obstrução e intimidação.


Em uma frase: por que estes 3 dias importam?

Porque o caso saiu do “colapso bancário com suspeita de fraude” e passou a ser tratado, em despachos e reportagens, como um ecossistema com quatro camadas interligadas: fraude financeira, ocultação patrimonial, intimidação/obstrução e corrupção institucional — incluindo suspeita de acesso privilegiado a informações e influência sobre o regulador.