Política

Caso Master chega ao núcleo político: PF mira Ciro Nogueira em nova fase da Operação Compliance Zero

A Polícia Federal deflagrou uma nova fase da Operação Compliance Zero mirando o senador Ciro Nogueira, suspeito de ter recebido vantagens indevidas de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em troca de atuação política favorável à instituição. A investigação apura pagamentos mensais, custeio de viagens e possível influência na apresentação de uma emenda que beneficiaria o banco. A defesa do senador nega irregularidades.

EPor Eduardo Carvalho
7 de mai. de 202613 Visitas
Caso Master chega ao núcleo político: PF mira Ciro Nogueira em nova fase da Operação Compliance Zero

A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira, 7 de maio de 2026, a quinta fase da Operação Compliance Zero, investigação que apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional ligados ao Banco Master. Pela primeira vez, a operação avançou de forma direta sobre o núcleo político do caso, tendo como um dos alvos o senador Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do Progressistas e ex-ministro da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro.

Segundo a Polícia Federal, foram cumpridos dez mandados de busca e apreensão e um mandado de prisão temporária, expedidos pelo Supremo Tribunal Federal, nos estados do Piauí, São Paulo, Minas Gerais e no Distrito Federal. A decisão judicial também autorizou o bloqueio de R$ 18,85 milhões em bens, direitos e valores.

O ponto central da nova fase é a suspeita de que Ciro Nogueira teria recebido vantagens econômicas indevidas de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, em troca de atuação parlamentar favorável aos interesses do grupo financeiro. De acordo com a PF, os indícios incluem pagamentos mensais que teriam variado entre R$ 300 mil e R$ 500 mil, além do custeio de viagens internacionais, hospedagens, restaurantes, voos privados e uso de imóveis de alto padrão ligados a Vorcaro.

Um dos episódios destacados pela investigação é a chamada “Emenda Master”, apresentada por Ciro Nogueira à PEC 65/2023, em agosto de 2024. A proposta aumentava a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante, medida que, segundo a PF, favoreceria diretamente o modelo de captação do Banco Master. Investigadores afirmam que o texto teria sido elaborado por assessores do próprio banco e entregue na residência do senador para ser apresentado no Congresso.

A investigação também aponta uma operação societária considerada suspeita. Segundo a PF, uma empresa ligada ao núcleo familiar de Ciro Nogueira, a CNLF Empreendimentos, teria adquirido por R$ 1 milhão uma participação na Green Investimentos avaliada em aproximadamente R$ 13 milhões. Para os investigadores, a diferença entre o valor pago e o valor estimado do ativo configuraria uma vantagem econômica indireta.

Na decisão que autorizou as medidas, o ministro André Mendonça, do STF, afirmou que os elementos reunidos indicam, em tese, um arranjo voltado à obtenção de benefícios mútuos entre Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro, “extrapolando relações de mera amizade”. O ministro também proibiu o senador de manter contato com investigados e testemunhas da Operação Compliance Zero.

A operação também atingiu Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão de Ciro, e Felipe Cançado Vorcaro, primo de Daniel Vorcaro, apontado como operador financeiro do banqueiro. Felipe foi alvo de prisão temporária, enquanto Raimundo Neto terá de usar tornozeleira eletrônica, não poderá deixar o município onde reside nem sair do país, além de ficar proibido de manter contato com outros investigados.

O avanço da PF ocorre em meio à ampliação das investigações sobre o Banco Master, instituição que já havia sido liquidada pelo Banco Central em novembro de 2025, em meio a uma grave crise financeira e a apurações sobre fraudes no sistema bancário. A Reuters classificou a busca contra Ciro como uma escalada da investigação para a esfera política.

A defesa de Ciro Nogueira negou irregularidades. Em nota, os advogados afirmaram repudiar “qualquer ilação de ilicitude” envolvendo a atuação parlamentar do senador e disseram que ele está à disposição para prestar esclarecimentos. A defesa também criticou o uso de medidas consideradas graves com base, segundo ela, em “mera troca de mensagens, sobretudo por terceiros”.

A nova fase da Compliance Zero aprofunda o impacto político do caso Master. O que começou como uma investigação sobre fraudes financeiras e gestão irregular de uma instituição bancária agora alcança diretamente lideranças do Congresso, expondo a suspeita de que interesses privados do setor financeiro teriam sido convertidos em propostas legislativas, benesses pessoais e articulações políticas nos bastidores de Brasília.