Charles Dickens, "Great Expectations" e o valor da literatura
Na estreia desta coluna, apresentamos Charles Dickens como a porta de entrada ideal para a alta literatura, unindo o ritmo dos folhetins à profundidade moral. Através de Grandes Esperanças, analisamos como os clássicos moldam o caráter humano e expandem o domínio da nossa própria linguagem. Descubra por que a boa literatura é um antídoto excelente para a dispersão moderna e um útil meio para uma vida interior mais rica.

Dos grandes nomes da literatura universal, o inglês Charles Dickens (1812–1870) talvez seja um dos mais acessíveis a nós, leitores incultos e apressados do século XXI. Quase toda a obra ficcional deste autor fundamental foi publicada originalmente em formato de folhetins, com lançamentos mensais ou semanais. Tal modelo de publicação incentivava o escritor – desejoso de que o leitor comprasse o capítulo seguinte – a empregar um estilo dinâmico e repleto de ganchos narrativos, os chamados cliffhangers. O resultado é uma leitura de ritmo intenso, na qual o próximo ato está sempre cercado de vibrante expectativa e o desfecho costuma ser surpreendente, assemelhando-se às nossas modernas séries e novelas televisivas. Certamente, para um mundo em que as pessoas possuem notável dificuldade de concentração, a obra dickensiana é uma excelente porta de entrada para os que desejam mergulhar no universo das boas letras.
É evidente que Dickens não se resume a um estilo frenético ou à utilização desenfreada de ganchos narrativos; muito menos era um escritor apelativo, como muitas vezes são nossas modernas produções audiovisuais. Longe disso: o britânico, apelidado de “O Inimitável”, não só era um exímio contador de histórias, sendo capaz de construir tramas profundíssimas, mas reunia nelas elementos dos mais diversos, mesclando o típico realismo londrino do século XIX – inaugurado pelo próprio Dickens – com um inteligente humor, críticas sociais profundas, lições morais preciosas e a riqueza dos seus memoráveis personagens. Aliás, os personagens são, na minha opinião, a maior pérola da sua obra: impossível esquecer-se da excêntrica Betsy Trotwood (David Copperfield), do bondoso Joe Gargery (Grandes Esperanças), do ranzinza e anti-natalino Scrooge (Um Conto de Natal), do esquisitamente sombrio Tulkinghorn (A casa soturna) e de muitos outros. O leitor d’A Muralha certamente não se arrependerá de mergulhar no mundo de Dickens, cheio de reviravoltas, dramas e excentricidades temperadas com o mais fino humor britânico.
O presente artigo, porém, não busca ser apenas uma recomendação literária. Na estréia da nossa coluna, buscaremos dar ao leitor motivos sólidos para ler as grandes obras da literatura universal, e por meio delas, beber dessa riquíssima fonte da qual beberam muitas das maiores almas que já caminharam entre nós; e ao elencar tais motivos também fugiremos dos conhecidos clichês que já se popularizaram no meio conservador brasileiro, já esgotados por uma miríade de cursos e vídeos de Instagram. E para ilustrar o tão elevado valor da boa literatura, utilizaremos o exemplo de um dos mais célebres romances de Charles Dickens, Grandes Esperanças (no original: Great Expectations). Sigamos!
O primeiro grande valor da literatura é o seu valor moral. Estabelecemos este valor em primeiro lugar pois ele se relaciona com o fim do que estamos tratando; afinal, a principal finalidade da arte não está em deleitar os sentidos com sua beleza, mas na formação do caráter humano, na elevação da alma daquele que entra em contato com a obra. Apoiamo-nos aqui em Aristóteles (na sua Poética e no VIII livro da sua Política) e no filósofo, teólogo e lexicógrafo carioca Carlos Nougué, que desenvolveu de modo exaustivo a questão da causa final da arte em seu “Da Arte do Belo”. Por fazer quem a lê propender ao bem por meio do belo, a boa literatura é uma espécie de escola de virtudes. Não devemos esperar das boas obras, porém, tratados de moralidade literais ou lições de moral vulgares; é por meio justamente da sua riqueza expressiva, dos seus bons e maus personagens, dos seus desfechos felizes ou trágicos, com todas as suas nuances, complexidades e sutilezas, que a literatura universal nos conduz ao bem por meio do belo e nos afasta do mal por meio do horrendo.
No romance “Grandes Esperanças”, Dickens nos apresenta um paupérrimo menino do interior da Inglaterra, Pip. Órfão, criado pela iracunda irmã e destinado a trabalhar junto ao seu único amigo, o seu cunhado Joe Gargery, os horizontes da vida do pequeno mancebo não ultrapassam a humilde oficina de Joe, em que ele já está prestes a iniciar os estudos para acompanhar o analfabeto companheiro no seu ofício de ferreiro. A primeira reviravolta da trama – que o leitor me perdoe pelo spoiler – coloca Pip diante de novos horizontes e expectativas: um misterioso e incógnito benfeitor irá fazê-lo um cavalheiro, dando-lhe uma rica pensão e uma nobre educação. Diante da nova realidade, o protagonista da história acaba por desprezar seu antigo amigo, envergonhando-se da pobreza, da rudeza e da ignorância do velho Joe. A bondade e misericórdia que o velho ferreiro irá manifestar no decorrer da história é verdadeiramente comovente: nos exemplos de Joe, vemos com clareza o valor de um coração puro e leal, e como não só as coisas materiais deste mundo pouco importam, mas com qual facilidade nos arrastam para o abismo; é impossível ler o livro e não querer ser como Joe Gargery, ou ao menos ter um amigo como ele, fiel, humilde, misericordioso e solícito em nossos piores momentos. Ao mesmo tempo, o mau exemplo do protagonista faz com que olhemos para nós mesmos e enxerguemos a mesma maldade de Pip, em potência ou em ato, pronta para nos impelir às maiores ingratidões.
O segundo valor da literatura que desejamos pontuar é o valor expressivo. Os limites da nossa linguagem são os limites do nosso mundo, cunhou Wittgenstein em seu Tractatus Logico-Philosophicus; embora reconheçamos as limitações de tal afirmação – que não buscamos aqui esmiuçar –, é inegável que há nela algo de profundamente verdadeiro. Os grandes escritores são capazes de exprimir, por meio da linguagem, o que há de mais profundo e sutil na alma humana, e por meio das suas obras podemos entrar em contato com uma espécie de mundo novo, com pensamentos que difícilmente conseguiríamos elaborar sozinhos, experiências que não iríamos viver e imagens que nessa vida jamais poderíamos contemplar por conta própria; por meio da escrita, os grandes autores compartilham conosco as riquezas da sua alma, enriquecendo o nosso mundo interior no processo. Conforme vamos tendo contato com as grandes obras da literatura universal, ganhamos uma maior capacidade de expressar de modo mais rico os nossos próprios pensamentos, ao mesmo tempo em que a nossa própria vida interior, as nossas próprias reflexões e ideias, vão enriquecendo-se em um processo helicoidal, em que a riqueza da expressão faz a riqueza do pensamento e vice-versa. Convido o leitor a assistir entrevistas em solo brasileiro nos anos 70 do século passado, em que uma parcela bem maior da população tinha contato com as boas letras; ficará evidente que quem lê mais, pensa melhor, e ao pensar melhor, fala melhor e vive melhor.
Na obra dickensiana da qual estamos tratando, nos são apresentados mundos bem diferentes entre si, e os contrastes e semelhanças entre eles nos ajudam a conhecer a sociedade inglesa, cheia de idiossincrasias, problemas e arquétipos, em que viveu Charles Dickens. Tanto na pobre vila natal do protagonista, quanto no luxuoso casarão em que ele tem o primeiro contato com a alta sociedade, quanto na caótica Londres com suas prisões, tribunais e escritórios advocatícios, o drama humano se faz presente das mais particulares formas, ecoando tanto a rica imaginação quanto as multiformes experiências do escritor britânico. Uma das mais marcantes figuras é a da miss Havisham; após ser cruelmente abandonada no altar por um noivo interessado apenas em roubar sua vasta – e herdada – fortuna, a rica mulher teve um colapso mental mórbido, passando o resto dos seus dias utilizando o antigo vestido de noiva e com todos os relógios da sua enorme casa congelados no exato horário em que casaria com o outrora amor da sua vida. Em uma espécie de vingança existencial contra os homens, ela adota Estella, uma pobre e bela menina, e a cria para usar toda sua beleza, riqueza e sutileza de costumes para manipular e magoar os homens, dentre eles, por triste coincidência, o nosso protagonista, o pobre Pip. Ambas as mulheres acabaram, de formas radicalmente distintas, tornando-se criaturas incapazes de amar, e os inúmeros conflitos interiores das duas figuras envolvem Pip, numa das mais trágicas e surpreendentes tramas do romance.
Para além do crescimento moral e da evolução expressiva e cultural, as boas obras de literatura são divertidas. A leitura é uma das mais antigas formas de lazer, e a multidão dos gêneros e dos estilos permitem que pessoas de qualquer personalidade ou humor encontrem algo do seu agrado no grande tesouro da literatura universal. Nas obras de Dickens há sempre momentos em que o fino humor do autor emerge, fazendo o leitor rir com os excêntricos e eloquentes personagens que estão presentes em todas as suas obras, como o hilário Sr. Wopsle de Grandes Esperanças, um frustrado clérigo anglicano que decide tornar-se um péssimo e cômico ator de teatro em Londres. Em uma época em que a indústria audiovisual nos bombardeia com entretenimento apelativo, grosseiro e muitas vezes propagandístico das mais baixas ideologias, os clássicos da literatura universal são uma saída saudável e edificante, testada pelo tempo e aprovada pelas mais célebres mentes da nossa civilização.
Na capa do artigo: Miss Havisham e Estella, na adaptação da obra dirigida por David Lean em 1946.