Formação e Doutrina

Cristo, o Deus da história e da distinção plena entre o justo e o injusto.

Cristo se destaca na história das religiões por unir base histórica sólida e perfeição moral absoluta. Diferente de figuras míticas como Krishna ou Rama, Jesus existiu em contexto concreto e sua vida não apresenta qualquer desvio ético — sendo o parâmetro máximo para distinguir o justo do injusto, especialmente na sua paixão e condenação.

EPor Eduardo Carvalho
3 de abr. de 202611 Visitas
Cristo, o Deus da história e da distinção plena entre o justo e o injusto.

Confesso que já estudei bastante religião comparada e nada, nada chegava perto da história da paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. E nada, nenhuma das outras histórias dos grandes mestres das grandes religiões, possui tanta veracidade histórica quanto a história do Cristo.

Se a pergunta é: “Entre os grandes seres divinos das maiores religiões, qual tem base histórica mais sólida de existência real?”, a resposta é Jesus Cristo. Ele não aparece apenas como símbolo mítico ou personagem épico: aparece inserido num contexto histórico concreto, em lugar, tempo, governo e conflitos identificáveis, e sua existência não depende só da fé cristã.

Isso torna Cristo um caso extraordinário: o Deus em que cremos não é apenas uma abstração mitológica, mas alguém situado na história humana, a ponto de a discussão séria entre estudiosos não ser “se existiu”, mas “quem foi exatamente”. Já outras figuras divinas célebres em outras religiões, como Krishna ou Rama, pertencem a tradições religiosas vastíssimas e profundíssimas, mas sabe-se concretamente que não possuem existência histórica comparável à de Jesus.

A magnificência de Nosso Senhor Jesus Cristo vai além quando O contemplamos e não somos capazes de descrever n’Ele uma iniquidade, um pecado, um desvio moral. O que vemos em Cristo é a justiça em sua plenitude. Em Cristo, o que impressiona não é apenas a grandeza do ensinamento, mas a absoluta coerência entre palavra, caráter e ação. Em quase todas as tradições míticas, as divindades aparecem, em maior ou menor grau, como projeções magnificadas das paixões humanas: iram-se por capricho, disputam entre si, cedem ao ciúme, à vaidade, à sensualidade, ao impulso da vingança ou ao gosto da dominação. São poderosas, mas não necessariamente santas; superiores aos homens em força, mas não em pureza moral. Em Cristo ocorre o inverso: sua superioridade não se manifesta primordialmente pelo espetáculo do poder, mas pela perfeição interior. Nele não vemos o vício engrandecido; vemos a natureza humana elevada ao seu ponto máximo de retidão.

A singularidade de Cristo está justamente aí: Ele não é um deus mitológico que reproduz, em escala cósmica, os desarranjos da alma humana. Não é movido por ambição, não busca prestígio, não manipula os homens para satisfazer carências, não usa o poder para exibir superioridade. Pelo contrário, sua vida inteira é marcada por domínio de si, sobriedade, mansidão e uma liberdade interior quase incompreensível. Ele resiste à tentação sem oscilar, exerce autoridade sem tirania, corrige sem humilhar, sofre sem se corromper pelo ressentimento. Mesmo quando manifesta ira, ela nunca é explosão passional ou descontrole: é indignação justa, subordinada ao bem, jamais uma paixão que o arraste.

Há ainda um aspecto filosófico interessantíssimo. O vício pressupõe desordem interior: a inteligência obscurecida, a vontade enfraquecida, o apetite rebelado contra o bem. Pecar é, em certo sentido, falhar no ser; é agir abaixo da medida da verdade e da razão. Cristo, porém, aparece como plenitude de integração. Nele não há ruptura entre conhecer o bem e realizá-lo. Não há distância entre verdade e conduta. Sua personalidade não revela fissuras psicológicas nem ambiguidades morais. Não há nele vaidade espiritual, sensualidade desregrada, covardia, inveja, cálculo mesquinho, apego ao conforto ou à autopreservação. Ele não usa o outro, não instrumentaliza ninguém, não mente para vencer, não transige com o mal por conveniência. Sua alma não parece dividida. E isso, do ponto de vista humano, é raríssimo; do ponto de vista religioso, é absolutamente extraordinário.

Enquanto outras figuras divinas ou semidivinas frequentemente personificam forças da natureza, impulsos coletivos ou dramas humanos eternizados em narrativa sagrada, Cristo se apresenta como norma moral. Ele não apenas possui poder; Ele é digno de imitação. E este é um ponto crucial. Muitos deuses antigos são veneráveis, temíveis ou fascinantes, mas não são modelos éticos perfeitos. Cristo, ao contrário, pode ser contemplado como medida do homem verdadeiro. Não há em sua figura qualquer elemento que precise ser desculpado, relativizado ou encoberto. Quanto mais se examina sua vida, mais ela parece escapar ao tipo de defeito que acompanha até os maiores homens da história.

Também por isso a impressão causada por Cristo é intelectualmente tão forte. Os grandes pais da Igreja, profetas, filósofos e líderes espirituais sempre deixam entrever algum limite pessoal: orgulho, dureza, parcialidade, excesso, vaidade, paixão política, cegueira moral em algum ponto. Em Cristo, a tradição cristã sempre enxergou algo desconcertante: não apenas um mestre superior, mas uma santidade sem poréns. Seus inimigos — fariseus —o acusavam de blasfêmia, de subversão, de ameaça à ordem, mas não conseguem apontar nele baixeza moral. Falta-lhe precisamente aquilo que sobra nos homens: a miséria interior.

Em termos mais profundos, a ausência de pecado em Cristo não é um detalhe devocional, mas o sinal de uma diferença ontológica. Ele não parece simplesmente melhor do que os demais; parece pertencer a outra ordem. Onde as outras divindades refletem a humanidade exaltada, Cristo revela a humanidade redimida. Onde os mitos frequentemente divinizam as paixões, Cristo as julga e as ordena. Onde outros personagens sagrados impressionam pelo poder, pelo mistério ou pela antiguidade, Cristo impressiona pela pureza. E talvez seja precisamente isso que o torne incomparável: nele, pela primeira vez, o homem não vê apenas o sagrado poderoso, mas o sagrado moralmente perfeito.

Daí observamos o julgamento de Cristo e conseguimos fazer a distinção exata entre o plenamente justo e o plenamente injusto. Não há nada mais injusto que a condenação terrena do perfeito e a salvação terrena do assassino, quanto mais a condenação advinda logo das lideranças daquele povo com cuja vinda se cumpre a promessa. Temos aí a própria injustiça da traição: alguém punido sem ter cometido delito algum por aqueles com quem prometeu a vinda. É o contraste máximo do que é justo e injusto em um único ato na história humana. Se quisermos distinguir o justo e o injusto, olhamos para toda a vida de Cristo e separamos as ações de Cristo — justas — e as ações de seus algozes — injustas — sendo a paixão exemplo mor disso.

Assim, a cruz não é apenas o símbolo do sofrimento inocente, mas o tribunal onde a justiça e a injustiça se revelam em seu contraste mais agudo. Nela, vemos o inocente condenado e o culpado absolvido — não por acaso ou arbitrariedade, mas porque a justiça divina opera numa lógica que ultrapassa a humana: onde o amor assume a pena para que a verdade não seja derrotada. Dessa forma, a paixão de Cristo se torna o critério definitivo para todo julgamento moral. Quem quiser discernir entre o justo e o injusto, entre o que edifica e o que corrompe, entre o santo e o perverso, não precisa de teorias abstratas: basta contemplar aquele que, sendo Deus, não reteve para si sua igualdade, mas se esvaziou a si mesmo, obediente até a morte, e morte de cruz. Ali está a medida exata do bem e a condenação irrevogável de todo mal.