Política

Dark Horse, Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro: o filme que virou bomba política no colo do bolsonarismo

Uma cinebiografia internacional sobre Jair Bolsonaro, concebida para funcionar como peça simbólica da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro, transformou-se no centro de uma crise política após a revelação de mensagens, áudios e documentos que apontam negociações milionárias com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, instituição liquidada pelo Banco Central e alvo de investigação por fraude bilionária.

EPor Eduardo Carvalho
26 de mai. de 20265 Visitas
Dark Horse, Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro: o filme que virou bomba política no colo do bolsonarismo

O caso envolve um roteiro explosivo: um filme chamado Dark Horse, ou “O Azarão”, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro; a participação direta de Flávio Bolsonaro nas tratativas de financiamento; a atuação de Eduardo Bolsonaro e Mario Frias na estrutura do projeto; repasses internacionais para um fundo sediado no Texas; e a presença de Daniel Vorcaro, banqueiro preso em meio ao maior escândalo financeiro recente do país. A apuração inicial foi revelada pelo Intercept Brasil, e depois ganhou repercussão na Câmara, no mercado financeiro e na disputa presidencial de 2026.

O filme que deveria consagrar Bolsonaro

Dark Horse foi apresentado como uma produção internacional sobre a vida de Jair Bolsonaro. O projeto, segundo documentos revelados, teve orçamento estimado entre US$ 23 milhões e US$ 26 milhões, valor considerado muito alto para padrões brasileiros e comparável a produções de porte internacional. O filme teria o ator Jim Caviezel no papel de Jair Bolsonaro e direção de Cyrus Nowrasteh. A estreia chegou a ser anunciada por Caviezel para 11 de setembro de 2026, poucas semanas antes da eleição presidencial, embora o site oficial do filme não confirme data de lançamento no Brasil.

A intenção política do projeto é evidente pelo próprio calendário: a produção serviria para embalar a memória pública de Jair Bolsonaro, reforçar sua imagem junto ao eleitorado conservador e, indiretamente, favorecer a candidatura de Flávio Bolsonaro ao Planalto. O problema é que a origem dos recursos passou a ser o centro da crise.

A revelação central: US$ 24 milhões negociados com Vorcaro

A principal denúncia divulgada pelo Intercept afirma que Flávio Bolsonaro negociou diretamente com Daniel Vorcaro um aporte de US$ 24 milhões, equivalente à época a cerca de R$ 134 milhões, para financiar o filme sobre seu pai. Segundo a reportagem, documentos, mensagens e áudios indicam que pelo menos US$ 10,6 milhões, cerca de R$ 61 milhões, teriam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025 em seis operações.

Os registros apontam que parte do dinheiro teria sido enviada pela Entre Investimentos e Participações para o Havengate Development Fund LP, fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos, ligado a aliados de Eduardo Bolsonaro. O Grupo Entre negou vínculo societário, de controle ou de governança com Vorcaro, mas o Intercept afirma ter encontrado indícios de conexão operacional e financeira entre o grupo e o banqueiro.

A estrutura revelada inclui ainda os nomes de Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro, e Altieris Santana, apontados em documentos societários como vinculados ao fundo Havengate. Segundo a apuração, parte dos recursos negociados por Flávio com Vorcaro teria ido para esse fundo controlado por aliados de Eduardo.

Flávio Bolsonaro: da negativa pública à admissão

O ponto politicamente mais danoso para Flávio Bolsonaro foi a sequência de versões. No dia 13 de maio de 2026, ao ser questionado pelo Intercept sobre o financiamento de Vorcaro ao filme, o senador negou a informação e chamou a pergunta de mentira. Horas depois, após a publicação da reportagem com áudios e mensagens, Flávio mudou a versão e admitiu ter tratado com Vorcaro sobre o financiamento da produção.

Depois, em entrevista coletiva, Flávio afirmou que sua relação com Vorcaro se limitava a um acordo de investimento privado no filme, sem contrapartida política ou favorecimento. Ele também admitiu ter se encontrado com o banqueiro depois da primeira prisão de Vorcaro e de sua liberação com tornozeleira eletrônica, mas sustentou que o encontro teria servido para encerrar as tratativas após tomar conhecimento da gravidade das acusações contra o dono do Master.

A crise piorou quando Valdemar Costa Neto, presidente do PL, afirmou em entrevista que Flávio teria ido a Vorcaro depois da prisão para tentar obter o restante do dinheiro prometido ao filme. A fala de Valdemar contradiz a versão apresentada por Flávio, de que o encontro teria ocorrido apenas para encerrar a relação.

O áudio das cobranças

Segundo o Intercept, em setembro de 2025, Flávio Bolsonaro enviou áudio a Vorcaro cobrando parcelas pendentes e demonstrando preocupação com o risco de paralisação do filme. A gravação menciona a preocupação com compromissos financeiros com Jim Caviezel, Cyrus Nowrasteh e demais envolvidos na produção. O senador teria alertado que a falta de pagamento poderia comprometer elenco, direção e equipe.

As mensagens também indicam contato frequente entre Flávio e Vorcaro nos meses seguintes. Em novembro de 2025, dias antes da prisão do banqueiro, Flávio enviou mensagem chamando Vorcaro de “irmão” e demonstrando proximidade pessoal. Um dia depois, Vorcaro foi preso; no dia seguinte, o Banco Master foi liquidado pelo Banco Central.

O papel de Eduardo Bolsonaro

Outro eixo importante da revelação envolve Eduardo Bolsonaro. De acordo com contrato obtido pelo Intercept, Eduardo e Mario Frias aparecem como produtores-executivos do projeto, com responsabilidades relacionadas a estratégia, financiamento, orçamento e captação de recursos. A reportagem afirma que isso contradiz a versão de Eduardo de que teria apenas cedido direitos de imagem e não exercido cargo de gestão no filme.

A apuração mostra ainda que Eduardo teria enviado orientações sobre a melhor forma de movimentar recursos para os Estados Unidos. Em uma das mensagens, segundo o Intercept, ele sugere que o ideal seria que os recursos já estivessem nos EUA para facilitar a operação. A Polícia Federal, segundo reportagem citada pelo Intercept, apura se dinheiro de Vorcaro destinado ao filme teria custeado despesas de Eduardo nos Estados Unidos. Eduardo nega ter recebido o dinheiro negociado para o filme.

O plano de negócios do filme também chama atenção: previa cotas de investimento, promessa de devolução do capital com lucro de 20%, participação nos resultados e até uma “oportunidade de imigração”, apresentada como benefício para investidores interessados em residência permanente nos Estados Unidos.

Mario Frias e a articulação do projeto

O deputado Mario Frias, ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro, aparece como outro personagem central. Segundo o Intercept, Frias enviou áudio a Vorcaro em dezembro de 2024 agradecendo o apoio ao filme e demonstrando entusiasmo com a produção. A defesa de Frias confirmou contatos com o banqueiro, mas afirmou que as mensagens refletiam relação legítima entre idealizador de projeto e potencial apoiador privado, negando lobby ou favorecimento empresarial.

Frias também aparece no contrato como produtor-executivo ao lado de Eduardo Bolsonaro. Sua defesa, porém, declarou que Eduardo não teria sido produtor-executivo e que não recebeu valores do fundo ligado ao filme.

A tentativa de encontro com Jair Bolsonaro na mansão de Vorcaro

Outro ponto revelado foi um plano para levar Jair Bolsonaro à mansão de Daniel Vorcaro em Brasília para assistir a um documentário. Segundo mensagens privadas divulgadas pelo Intercept, Vorcaro teria aceitado receber Bolsonaro em sua casa no fim de março de 2025, um dia após o ex-presidente se tornar réu por tentativa de golpe. A reunião seria parte de uma aproximação para viabilizar o apoio ao filme Dark Horse.

O Intercept afirma que Flávio Bolsonaro e Mario Frias sabiam da articulação, mas os registros não confirmam se o encontro de fato ocorreu. Em nota, Flávio disse que o encontro não aconteceu e negou ter participado da organização.

A reportagem apagada do Portal Leo Dias

A crise ganhou outro capítulo quando o Intercept revelou que o Portal Leo Dias apagou uma reportagem sobre Dark Horse cerca de uma hora após Daniel Vorcaro reclamar da divulgação do projeto. Segundo mensagens, Vorcaro demonstrou irritação por o filme ter sido noticiado antes da hora, e Thiago Miranda, sócio do portal e intermediário nas tratativas, respondeu que pediria a remoção da matéria.

A troca de mensagens sugere que havia interesse em manter o projeto em sigilo. Segundo a apuração, Miranda informou depois que o pedido de remoção havia sido atendido e disse que “Flavio” daria uma ligação a Vorcaro, embora a reportagem ressalve que não é possível afirmar com certeza se a referência era ao senador Flávio Bolsonaro ou a outro empresário citado no caso.

O Banco Master e a queda de Vorcaro

A gravidade política do caso decorre do perfil de Daniel Vorcaro. O Banco Master foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025, no mesmo dia em que a Polícia Federal deflagrou uma operação que levou à primeira prisão do banqueiro. A investigação apura a fabricação de carteiras de crédito sem lastro, que teriam sido vendidas ao Banco de Brasília, o BRB.

A Associated Press informou que o governo brasileiro fechou o Banco Master, então avaliado em até US$ 16 bilhões em ativos, após investigação federal sobre fraude. A Polícia Federal apontou suspeitas de gestão fraudulenta, gestão temerária, organização criminosa, congelamento de bilhões de reais e apreensão de bens de luxo.

Em março de 2026, Vorcaro voltou a ser preso em nova fase da investigação. Segundo a Reuters, a decisão citou indícios de tentativa de suborno de ex-dirigente do Banco Central em troca de tratamento favorável, além de mensagens que indicariam planos de agressão contra jornalista. A defesa de Vorcaro negou irregularidades e afirmou esperar demonstrar a regularidade de sua conduta.

CPI, mercado e impacto eleitoral

A revelação levou deputados de diferentes partidos a defenderem a abertura de uma CPI para investigar o Banco Master e as relações de Vorcaro com pessoas públicas. Na Câmara, parlamentares governistas criticaram Flávio, enquanto aliados da oposição defenderam que não havia ilegalidade comprovada no pedido de financiamento privado. O próprio Flávio também passou a defender a instalação de CPI sobre o Master.

No mercado financeiro, a associação com Vorcaro se tornou tóxica. Segundo a CNN Brasil, Flávio teria negado a um banqueiro influente que mantinha contato com Vorcaro; depois da divulgação dos áudios, tentou se explicar, mas não foi recebido. A reportagem descreveu isolamento do senador na Faria Lima e uma crise de confiança em torno de sua imagem.

O efeito eleitoral também apareceu nas pesquisas. Levantamento Datafolha divulgado em 22 de maio de 2026 mostrou Lula à frente de Flávio Bolsonaro em eventual segundo turno por 47% a 43%, depois de pesquisa anterior apontar empate. A Reuters destacou que o levantamento foi feito após as revelações sobre a negociação de US$ 24 milhões com Vorcaro.

O que já está demonstrado e o que ainda precisa ser apurado

Até agora, o que está documentado pelas reportagens é que houve tratativas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse; que mensagens e áudios indicam cobranças de repasses; que documentos apontam pagamentos de pelo menos US$ 10,6 milhões; que o dinheiro teria passado por estruturas financeiras nos Estados Unidos; e que Eduardo Bolsonaro e Mario Frias aparecem ligados à produção executiva do projeto.

O que ainda depende de apuração oficial é se os valores tiveram origem ilícita, se houve lavagem de dinheiro, se parlamentares receberam benefício pessoal, se houve uso de influência política em favor do banqueiro ou se o financiamento do filme serviu para ocultar recursos do Banco Master. Também permanece em aberto o grau exato de participação de cada personagem na execução financeira do projeto.

Outro lado

Flávio Bolsonaro nega irregularidades e afirma que o caso envolvia investimento privado em uma produção audiovisual, sem contrapartida política. Ele disse que procurou Vorcaro para encerrar a relação após descobrir a gravidade da situação do banqueiro. Eduardo Bolsonaro nega ter recebido dinheiro do filme e sustenta que sua participação foi limitada. Mario Frias afirma que os contatos com Vorcaro eram legítimos e relacionados ao entusiasmo cultural com o projeto. A defesa de Vorcaro nega irregularidades nas acusações envolvendo o Banco Master.

Conclusão

O caso Dark Horse–Vorcaro–Flávio deixou de ser apenas uma suspeita sobre financiamento de filme e se tornou um problema político nacional. A cinebiografia que deveria apresentar Jair Bolsonaro como “o azarão” capaz de vencer o sistema passou a expor uma rede de relações entre o clã Bolsonaro, operadores políticos, produtores culturais, fundos internacionais e um banqueiro investigado por fraude bilionária.

A questão central, agora, não é apenas saber quem financiou o filme. É saber por que uma produção de finalidade evidentemente política buscou dinheiro junto a um banqueiro que já orbitava uma crise financeira de grandes proporções, por que a relação foi negada publicamente, qual foi o destino final dos recursos e se a estrutura montada para Dark Horse serviu apenas a uma obra cinematográfica — ou a algo maior.