Desindustrialização avança no Brasil e preocupa com novo acordo Mercosul-UE
Participação da indústria no PIB em queda e especialistas alertam que a abertura ao mercado europeu pode agravar perda de competitividade

O Brasil enfrenta um processo persistente de desindustrialização, com participação da indústria manufatureira no Produto Interno Bruto (PIB) em níveis historicamente baixos, e agora um acordo de livre-comércio com a União Europeia (UE) reacende preocupações econômicas sobre o futuro do setor industrial.
Dados recentes mostram que a produção industrial em estados-chave, como São Paulo, encolheu em cerca de 19% na última década, refletindo um processo de perda de dinamismo produtivo no país.
Desindustrialização: causas e impactos
Especialistas citam fatores estruturais para o enfraquecimento da indústria brasileira, incluindo carga tributária elevada, infraestrutura logística deficiente, baixo investimento em inovação e forte concorrência internacional. Além disso, a desvalorização cambial em diferentes períodos e a entrada de produtos importados com preços competitivos pressionam segmentos industriais tradicionais.
Esse cenário tem impacto direto sobre a geração de empregos formais e renda média salarial, já que a indústria tradicionalmente oferece ocupações mais qualificadas e remuneradas.
Acordo Mercosul-União Europeia: vantagens e riscos
No dia 17 de janeiro de 2026, Brasil e países do Mercosul assinaram um acordo comercial com a União Europeia, marcando a criação de uma das maiores áreas de livre comércio do mundo. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) afirmou que o pacto permitirá ao Brasil acessar até 36% do mercado global de comércio de bens, ampliando oportunidades de exportação e integração internacional.
O acordo pode eliminar tarifas para mais da metade dos produtos negociados entre os blocos, com prazos de até 15 anos para redução gradual de impostos sobre milhares de itens. Isso tem potencial para estimular exportações brasileiras, inclusive de bens industriais.
No entanto, economistas e setores produtivos alertam que a abertura ao mercado europeu pode também agravar a desindustrialização, se não houver contrapartidas de fortalecimento da indústria nacional. Para críticos do acordo, a liberalização pode consolidar um padrão em que o Brasil exporta commodities e bens primários, ao mesmo tempo em que importa produtos manufaturados europeus — especialmente em setores onde a indústria brasileira ainda luta para competir.
O economista Paulo Nogueira Batista Jr., ex-executivo do FMI, classificou o acordo como “neocolonial” e afirmou que ele pode fortalecer a dependência de exportações de matérias-primas e enfraquecer ainda mais a indústria manufatureira nacional, abrindo mercado interno de forma gradual para produtos europeus mais competitivos.
Debate entre oportunidades e vulnerabilidades
Defensores do acordo destacam que a maior integração ao mercado europeu pode atrair investimentos estrangeiros, transferência tecnológica e diversificação de exportações — fatores que poderiam beneficiar segmentos industriais específicos.
Por outro lado, críticos alertam que, sem políticas de apoio à modernização produtiva e à inovação, a abertura comercial pode aumentar a entrada de manufaturados europeus no Brasil, pressionando a indústria local em setores como máquinas, equipamentos e bens de alto valor agregado — justamente aqueles onde a competitividade interna ainda é mais fraca.