DO DESPREZO PELA VERDADE SEGUE-SE O DESPREZO PELO MÍNIMO: O CATECISMO
O que resta do intelectualismo quando ele se transforma apenas em uma coleção de citações soltas, repetidas fora de contexto em discussões triviais?

Muitas pessoas dizem que há divisões e rixas intermináveis nos meios católicos, algo que, antigamente, ocorria por motivos supérfluos que nada tinham a ver com a doutrina. Contudo, percebo que há um fenômeno que, em vez de representar um avanço católico no tocante à tomada de consciência sobre a importância da doutrina, está por se revelar um desvio inequívoco: o desprezo pela verdade acompanhado de um inchaço doutrinário. E isso quando não se manifesta um fenômeno ainda pior: a ausência do básico do catecismo.
Entendo que o que estou a dizer pode parecer contraditório, pois a doutrina católica é a verdade. Então, como “inchar-se da verdade” pode significar desprezo pela verdade? Essa pergunta pode ser esclarecida por meio de uma situação ao mesmo tempo hipotética e verossímil.
João e Brandão sentam-se em uma lanchonete para pedir o famoso X-Tudo com refrigerante. Durante a conversa, surge um tema polêmico atual — um tema que divide opiniões até mesmo nos mais elevados postos da Igreja. João defende que a verdade é X, porque fulano e sicrano afirmam que a Tradição ensina que X é verdade e Y é mentira. Brandão, por sua vez, utiliza o mesmo tipo de argumento para sustentar que, na verdade, X e Y são falsos e que Z é a verdade.
Ambos recorrem a argumentos de autoridade: santos, doutores e teólogos. Contudo, quando percebem, já estão a menosprezar as fontes que ambos utilizam, terminando em uma situação na qual um se coloca contra o outro. Após repetidos episódios como esse, a amizade acaba.
Quantas vezes, caríssimos leitores, não nos vimos nessa situação?
Daí vem a importância de compreender que, quando existe diversidade de opiniões acerca de uma matéria controvertida e não definida pelo Papa, deve-se respeitar a liberdade dos fiéis em acolher uma opinião proveniente de fontes X, Y ou Z, ainda que se contradigam entre si, contanto que nenhuma delas tenha sido condenada pela Igreja. Isso, por si só, já basta para pôr fim a todo sectarismo de grupos.
Entretanto, ainda há muitos que não compreendem isso e pensam que, à força de suas palavras, podem criar realidades alternativas e impor condições argumentativas aos seus objetores que, ao final, os levem a concordar consigo. Maravilhoso mundo, não?
Mas o mundo real não funciona assim. É por isso que muitos, apesar de se autoproclamarem “tomistas”, isto é, seguidores da escola de Santo Tomás de Aquino, acabam por traí-lo. Quando São Tomás se deparava com uma objeção, respondia de forma lógica e com argumentos de autoridade; porém, sabia que, em matéria controvertida, seu argumento não passava de uma opinião que julgava verdadeira e, por isso, defendia. Ainda assim, nenhum de seus argumentos continha ataques pessoais.
Por isso, é absolutamente necessário que haja, no movimento intelectual católico brasileiro, uma tomada de consciência: responder rapidamente a uma objeção é completamente inútil se, podendo estudar por mais tempo, se puder apresentar uma resposta baseada em um argumento verdadeiro ou que contribua para esclarecer a questão, caso a objeção seja válida. O que está em jogo em uma disputa não é “ficar por cima” nem “ter a última palavra”, mas chegar ao conhecimento da verdade.
A seguir, ofereço ao leitor reflexões de almas católicas sérias sobre o tema das disputas, retiradas do livro A Igreja e a Apostasia, do Pe. Olivier Rioult:
“Quando esta Igreja dá uma ordem e manifesta sua opinião sobre alguma doutrina sem proferir um juízo dogmático definitivo, eles creem, no entanto, que têm o dever de obedecer sincera e fielmente às suas prescrições e aos seus conselhos, pois ela é a mãe e guia de todas as Igrejas, isto é, de consentir plenamente, de se conformar em tudo à Sé Apostólica, segundo a regra de fé professada pelos Padres do oitavo concílio ecumênico, pois sabem que ‘ubi est Petrus, ibi Ecclesia’, onde está Pedro, aí está a Igreja, e que, para serem católicos, é-lhes necessário ser romanos. ‘Catholicus, idest Romanus’, Católico, portanto, Romano. Eles deixam às opiniões escolásticas conhecidas e permitidas o seu grau de probabilidade enquanto a Igreja não tiver manifestado seu parecer, e se guardam bem de censurar ou decidir alguma opinião que ainda não foi censurada ou decidida pela Igreja. Do mesmo modo, abstêm-se escrupulosamente, em seus escritos, palavras e em toda circunstância, de tudo o que possa ofender, ainda que minimamente, a paz e a caridade. [...] Têm, portanto, horror ao espírito de partido ou de novidade, isto é, não adotam uma doutrina porque ela lhes agrada ou porque é seguida por aqueles que estimam, sem se perguntarem se ela é verdadeira ou falsa; e rejeitam as doutrinas novas em oposição à Sagrada Escritura e aos Padres, ou em desacordo com o sentimento habitual da Igreja. Por isso, se lhes propõem ou lhes pregam teorias novas, por mais boas e sólidas que pareçam, não deixam de confrontá-las com a doutrina da Igreja, aceitando somente aquelas que são confirmadas por essa pedra de toque e afastando-se das outras, que não passam de fantasias humanas.”
(La spiritualité du Père Lanteri d'après ses écrits, pp. 105–107.)
E, para ilustrar a regra atribuída a Santo Agostinho — in necessariis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas —, o padre Lanteri cita os parágrafos 17 e 25 da constituição Sollecita do Sumo Pontífice Bento XIV:
“Devem considerar-se apenas os dogmas da Santa Igreja e a doutrina habitual dos católicos contida nos decretos dos concílios gerais, nas constituições dos pontífices romanos e na aprovação dos Padres e doutores ortodoxos. Além disso, deve-se lembrar que existem numerosas opiniões teológicas que parecem mais evidentes a uma escola, a um instituto ou a uma nação e são, no entanto, rejeitadas por outros teólogos religiosos e católicos sem nenhum perigo para a fé ou para a religião: opiniões proclamadas, opiniões debatidas, mantendo-se, contudo, cada uma dessas teses em sua probabilidade.”
Esse mesmo pontífice prossegue ainda, referindo-se a um decreto de Inocêncio XI:
“Enfim, para que os teólogos e os escolásticos se abstenham doravante de qualquer contenda injuriosa, agora e no futuro, a fim de preservar a paz e a caridade, o Santo Padre lhes ordena, em nome da virtude da santa obediência, que evitem, tanto nos livros publicados como nos escritos ou nas pregações, qualquer censura ou observação, e também qualquer crítica áspera sobre essas proposições ainda objeto de controvérsia entre católicos, até que a Santa Sé as aprove ou delas dê um julgamento definitivo.”
Bento XIV concluía então o parágrafo 25 com estas palavras:
“Não se pode, com efeito, tolerar que teses pessoais sejam apresentadas em livros como dogmas certos e definidos pela Igreja, ou que as teses opostas sejam acusadas de heresia. Com isso, o povo de Deus fica perturbado, as dissensões entre teólogos católicos são então geradas ou aumentadas, e os vínculos da caridade são rompidos.”
Essas palavras bastarão para fazer desaparecer todo sectarismo na conduta e todo excesso nas palavras?