Formação e Doutrina

DO DESPREZO PELA VERDADE SEGUE-SE O DESPREZO PELO MÍNIMO: O CATECISMO

O que resta do intelectualismo quando ele se transforma apenas em uma coleção de citações soltas, repetidas fora de contexto em discussões triviais?

GPor Gabriel Sapucaia
13 de mar. de 202662 Visitas
DO DESPREZO PELA VERDADE SEGUE-SE O DESPREZO PELO MÍNIMO: O CATECISMO

Muitas pessoas dizem que há divisões e rixas intermináveis nos meios católicos, algo que, antigamente, ocorria por motivos supérfluos que nada tinham a ver com a doutrina. Contudo, percebo que há um fenômeno que, em vez de representar um avanço católico no tocante à tomada de consciência sobre a importância da doutrina, está por se revelar um desvio inequívoco: o desprezo pela verdade acompanhado de um inchaço doutrinário. E isso quando não se manifesta um fenômeno ainda pior: a ausência do básico do catecismo.

Entendo que o que estou a dizer pode parecer contraditório, pois a doutrina católica é a verdade. Então, como “inchar-se da verdade” pode significar desprezo pela verdade? Essa pergunta pode ser esclarecida por meio de uma situação ao mesmo tempo hipotética e verossímil.

João e Brandão sentam-se em uma lanchonete para pedir o famoso X-Tudo com refrigerante. Durante a conversa, surge um tema polêmico atual — um tema que divide opiniões até mesmo nos mais elevados postos da Igreja. João defende que a verdade é X, porque fulano e sicrano afirmam que a Tradição ensina que X é verdade e Y é mentira. Brandão, por sua vez, utiliza o mesmo tipo de argumento para sustentar que, na verdade, X e Y são falsos e que Z é a verdade.

Ambos recorrem a argumentos de autoridade: santos, doutores e teólogos. Contudo, quando percebem, já estão a menosprezar as fontes que ambos utilizam, terminando em uma situação na qual um se coloca contra o outro. Após repetidos episódios como esse, a amizade acaba.

Quantas vezes, caríssimos leitores, não nos vimos nessa situação?

Daí vem a importância de compreender que, quando existe diversidade de opiniões acerca de uma matéria controvertida e não definida pelo Papa, deve-se respeitar a liberdade dos fiéis em acolher uma opinião proveniente de fontes X, Y ou Z, ainda que se contradigam entre si, contanto que nenhuma delas tenha sido condenada pela Igreja. Isso, por si só, já basta para pôr fim a todo sectarismo de grupos.

Entretanto, ainda há muitos que não compreendem isso e pensam que, à força de suas palavras, podem criar realidades alternativas e impor condições argumentativas aos seus objetores que, ao final, os levem a concordar consigo. Maravilhoso mundo, não?

Mas o mundo real não funciona assim. É por isso que muitos, apesar de se autoproclamarem “tomistas”, isto é, seguidores da escola de Santo Tomás de Aquino, acabam por traí-lo. Quando São Tomás se deparava com uma objeção, respondia de forma lógica e com argumentos de autoridade; porém, sabia que, em matéria controvertida, seu argumento não passava de uma opinião que julgava verdadeira e, por isso, defendia. Ainda assim, nenhum de seus argumentos continha ataques pessoais.

Por isso, é absolutamente necessário que haja, no movimento intelectual católico brasileiro, uma tomada de consciência: responder rapidamente a uma objeção é completamente inútil se, podendo estudar por mais tempo, se puder apresentar uma resposta baseada em um argumento verdadeiro ou que contribua para esclarecer a questão, caso a objeção seja válida. O que está em jogo em uma disputa não é “ficar por cima” nem “ter a última palavra”, mas chegar ao conhecimento da verdade.

A seguir, ofereço ao leitor reflexões de almas católicas sérias sobre o tema das disputas, retiradas do livro A Igreja e a Apostasia, do Pe. Olivier Rioult:

“Quando esta Igreja dá uma ordem e manifesta sua opinião sobre alguma doutrina sem proferir um juízo dogmático definitivo, eles creem, no entanto, que têm o dever de obedecer sincera e fielmente às suas prescrições e aos seus conselhos, pois ela é a mãe e guia de todas as Igrejas, isto é, de consentir plenamente, de se conformar em tudo à Sé Apostólica, segundo a regra de fé professada pelos Padres do oitavo concílio ecumênico, pois sabem que ‘ubi est Petrus, ibi Ecclesia’, onde está Pedro, aí está a Igreja, e que, para serem católicos, é-lhes necessário ser romanos. ‘Catholicus, idest Romanus’, Católico, portanto, Romano. Eles deixam às opiniões escolásticas conhecidas e permitidas o seu grau de probabilidade enquanto a Igreja não tiver manifestado seu parecer, e se guardam bem de censurar ou decidir alguma opinião que ainda não foi censurada ou decidida pela Igreja. Do mesmo modo, abstêm-se escrupulosamente, em seus escritos, palavras e em toda circunstância, de tudo o que possa ofender, ainda que minimamente, a paz e a caridade. [...] Têm, portanto, horror ao espírito de partido ou de novidade, isto é, não adotam uma doutrina porque ela lhes agrada ou porque é seguida por aqueles que estimam, sem se perguntarem se ela é verdadeira ou falsa; e rejeitam as doutrinas novas em oposição à Sagrada Escritura e aos Padres, ou em desacordo com o sentimento habitual da Igreja. Por isso, se lhes propõem ou lhes pregam teorias novas, por mais boas e sólidas que pareçam, não deixam de confrontá-las com a doutrina da Igreja, aceitando somente aquelas que são confirmadas por essa pedra de toque e afastando-se das outras, que não passam de fantasias humanas.”
(La spiritualité du Père Lanteri d'après ses écrits, pp. 105–107.)

E, para ilustrar a regra atribuída a Santo Agostinho — in necessariis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas —, o padre Lanteri cita os parágrafos 17 e 25 da constituição Sollecita do Sumo Pontífice Bento XIV:

“Devem considerar-se apenas os dogmas da Santa Igreja e a doutrina habitual dos católicos contida nos decretos dos concílios gerais, nas constituições dos pontífices romanos e na aprovação dos Padres e doutores ortodoxos. Além disso, deve-se lembrar que existem numerosas opiniões teológicas que parecem mais evidentes a uma escola, a um instituto ou a uma nação e são, no entanto, rejeitadas por outros teólogos religiosos e católicos sem nenhum perigo para a fé ou para a religião: opiniões proclamadas, opiniões debatidas, mantendo-se, contudo, cada uma dessas teses em sua probabilidade.”

Esse mesmo pontífice prossegue ainda, referindo-se a um decreto de Inocêncio XI:

“Enfim, para que os teólogos e os escolásticos se abstenham doravante de qualquer contenda injuriosa, agora e no futuro, a fim de preservar a paz e a caridade, o Santo Padre lhes ordena, em nome da virtude da santa obediência, que evitem, tanto nos livros publicados como nos escritos ou nas pregações, qualquer censura ou observação, e também qualquer crítica áspera sobre essas proposições ainda objeto de controvérsia entre católicos, até que a Santa Sé as aprove ou delas dê um julgamento definitivo.”

Bento XIV concluía então o parágrafo 25 com estas palavras:

“Não se pode, com efeito, tolerar que teses pessoais sejam apresentadas em livros como dogmas certos e definidos pela Igreja, ou que as teses opostas sejam acusadas de heresia. Com isso, o povo de Deus fica perturbado, as dissensões entre teólogos católicos são então geradas ou aumentadas, e os vínculos da caridade são rompidos.”

Essas palavras bastarão para fazer desaparecer todo sectarismo na conduta e todo excesso nas palavras?