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Em meio a guerra com Irã, diretor de contraterrorismo dos EUA renuncia e acusa Israel; arquivos de Epstein reacendem teorias sobre papel do Mossad

Em uma movimentação que expõe rachaduras profundas na administração Trump, o Diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos EUA (NCTC), Joe Kent, renunciou ao cargo nesta terça-feira (17) em desacordo com a guerra contra o Irã. Em uma carta de demissão explosiva, Kent acusou altos funcionários israelenses e a mídia americana de enganarem o presidente para iniciar o conflito.

EPor Eduardo Carvalho
17 de mar. de 202623 Visitas
Em meio a guerra com Irã, diretor de contraterrorismo dos EUA renuncia e acusa Israel; arquivos de Epstein reacendem teorias sobre papel do Mossad

WASHINGTON — Em uma movimentação que expõe rachaduras profundas na administração Trump, o Diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos EUA (NCTC), Joe Kent, renunciou ao cargo nesta terça-feira (17) em desacordo com a guerra contra o Irã. Em uma carta de demissão explosiva, Kent acusou altos funcionários israelenses e a mídia americana de enganarem o presidente para iniciar o conflito .

A renúncia de Kent, um veterano das forças especiais e da CIA nomeado por Trump, é a primeira de um alto funcionário do governo motivada por oposição política à guerra. A sua saída ocorre em um momento de crescente especulação online que tenta ligar os recentes vazamentos dos arquivos de Jeffrey Epstein — e um suposto papel do Mossad neles — às pressões geopolíticas que levaram ao conflito .

"Irã não representava ameaça": Kent culpa lobby israelense por guerra

Em sua carta de demissão, divulgada no X (antigo Twitter), Kent foi incisivo ao justificar sua saída. “Não posso, em sã consciência, apoiar a guerra em curso no Irã”, escreveu. “O Irã não representava nenhuma ameaça iminente à nossa nação, e está claro que iniciamos esta guerra devido à pressão de Israel e do seu poderoso lobby americano” .

Kent, que é amigo próximo do apresentador Tucker Carlson — um dos críticos mais ferozes do conflito dentro da base trumpista —, alegou que uma campanha de desinformação foi orquestrada para minar a plataforma "America First" do presidente. “Esta câmara de eco foi usada para enganá-lo, fazendo-o acreditar que o Irã representava uma ameaça iminente”, acrescentou .

A renúncia expõe as crescentes fissuras na coalizão de Trump. De acordo com a agência Xinhua, pesquisas indicam que 53% dos eleitores se opõem à ação militar, e figuras antes aliadas, como a ex-congressista Marjorie Taylor Greene, já classificaram a guerra como "America Last" .

O Fator Epstein: Arquivos alimentam teoria sobre o Mossad

A dimensão da crise ganha contornos ainda mais complexos quando sobreposta à recente liberação dos arquivos de Jeffrey Epstein. Apesar de não haver nenhuma evidência documentada nos autos que ligue Epstein à guerra, o timing dos eventos tem alimentado teorias da conspiração que conectam os dois assuntos .

De acordo com uma análise do Tehran Times, uma narrativa que ganhou força nas redes sociais sugere que a liberação dos arquivos de Epstein foi uma forma de chantagem política. A teoria postula que os arquivos funcionaram como uma “espada pendurada sobre a cabeça” de Trump, forçando-o a escolher entre a escalada militar contra o Irã ou a exposição de novos documentos que o implicassem no escândalo .

O elo central dessa teoria é a comprovação de que Jeffrey Epstein teria ligações com o Mossad, o serviço de inteligência israelense. De acordo com o The Jewish Chronicle, a comprovação de que Epstein era um "agente do Mossad" é uma das teorias mais consistentes que surgiram com a liberação dos arquivos, sendo promovida por figuras como o próprio Tucker Carlson e o apresentador Piers Morgan .

Em uma correspondência de 2018, Epstein chega a pedir ao ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak: “Você deve deixar claro que eu não trabalho para o Mossad”, seguido de um emoji sorridente .

Um informante anônimo citado em um memorando do FBI, e repercutido pela RT, afirmou estar “convencido de que Epstein era um agente cooptado do Mossad” .

Paralelismos Temporais ou Engrenagens Ocultas?

A grande questão que paira sobre Washington é se esses eventos são coincidência ou causalidade. O Tehran Times observa que a estratégia dos EUA em relação ao Irã vinha evoluindo há meses, com base em pressões econômicas e posicionamentos militares de longo prazo, não como uma reação súbita a um escândalo doméstico .

No entanto, a saída de um diretor de inteligência acusando Israel de manipulação, somada à desconfiança da base trumpista alimentada por teorias que envolvem os arquivos Epstein, cria um ambiente político volátil. Tucker Carlson, amigo de Kent, já havia unido os pontos em seu programa, sugerindo que os arquivos de Epstein, John F. Kennedy e os ataques de 11 de setembro estariam todos ligados a Israel .

“Joe é o homem mais corajoso que conheço”, disse Carlson em entrevista ao The New York Times sobre a renúncia de Kent. “Ele está deixando um emprego que lhe dava acesso à inteligência mais relevante. Os neoconservadores agora tentarão destruí-lo por isso” .