Política

Governo grita “soberania” contra os EUA, mas corta verba do Exército e enfraquece fronteiras contra o crime

Contingenciamento de R$ 4,3 bilhões na Defesa levou o Exército a suspender operações em áreas estratégicas de fronteira, justamente quando PCC e Comando Vermelho passam a ser tratados pelos Estados Unidos como organizações terroristas.

EPor Eduardo Carvalho
8 de jun. de 202623 Visitas
Governo grita “soberania” contra os EUA, mas corta verba do Exército e enfraquece fronteiras contra o crime

O governo federal reclama da interferência estrangeira na segurança brasileira, mas, ao mesmo tempo, corta recursos da própria estrutura encarregada de vigiar a fronteira nacional. Segundo reportagem da CNN Brasil, o contingenciamento de R$ 4,3 bilhões no orçamento da Defesa levou o Exército a suspender operações em curso de monitoramento contra o crime organizado nas fronteiras do país. Desse total, cerca de R$ 1,5 bilhão atingiria especificamente o Exército, que vinha desenvolvendo ações na região fronteiriça.

Enquanto Brasília acusa Washington de ameaçar a soberania brasileira ao classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras, o próprio governo reduz a capacidade operacional das Forças Armadas exatamente nos corredores por onde passam drogas, armas, contrabando, garimpo ilegal e cadeias logísticas do crime transnacional. As ações suspensas envolviam áreas sob atuação do Comando Militar da Amazônia e do Comando Militar do Oeste, justamente nas fronteiras com países associados à produção e ao trânsito de cocaína rumo ao Brasil.

O problema não é apenas orçamentário. É político. Um Estado que não controla suas fronteiras abre espaço para que outros Estados justifiquem pressão diplomática, sanções, operações de inteligência e mecanismos externos de tutela. A soberania não se sustenta por nota oficial e discurso antiamericano; sustenta-se com presença real do Estado no território, com Forças Armadas equipadas, Polícia Federal atuante, inteligência integrada e capacidade permanente de impedir que facções usem a fronteira como avenida aberta.

A gravidade aumenta porque a suspensão ocorre poucos dias depois de os Estados Unidos anunciarem a designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras, medida efetiva a partir de 5 de junho de 2026. O governo brasileiro rejeitou a classificação, alegando risco à soberania e possibilidade de interferência estrangeira em assuntos internos. Mas, se há uma forma concreta de defender a soberania, ela passa justamente por impedir que facções brasileiras se internacionalizem, dominem rotas amazônicas, infiltrem economias locais e submetam regiões inteiras ao poder paralelo.

A própria Operação Ágata demonstrava a importância desse tipo de ação. Em sua edição Amazônia 2026, realizada entre 27 de abril e 15 de maio, a operação apreendeu mais de 15 toneladas de drogas, desativou 62 dragas usadas no garimpo ilegal, mobilizou 2.346 militares e causou prejuízo estimado em mais de R$ 1,2 bilhão a organizações criminosas, segundo o Exército. Ou seja: tratava-se de uma ação com resultado concreto, não de uma peça simbólica de propaganda institucional.

O corte, portanto, envia a pior mensagem possível. Para as facções, comunica que o Estado brasileiro reduz sua presença exatamente onde elas mais lucram. Para os países vizinhos, mostra fragilidade no controle territorial. Para os Estados Unidos, fornece o argumento perfeito: se o Brasil não combate com força suficiente organizações criminosas de alcance transnacional, então atores externos poderão tentar impor sua própria agenda de segurança.

É nesse ponto que o discurso governista se desfaz. Não basta dizer que o Brasil é soberano. É preciso agir como Estado soberano. E um Estado soberano não corta a verba de quem patrulha fronteiras enquanto facções avançam sobre rios, matas, rotas de garimpo, pistas clandestinas, portos informais e corredores de narcotráfico.

O governo Lula parece querer o bônus retórico da soberania sem assumir o ônus material de defendê-la. Reclama da classificação americana, mas enfraquece a presença militar onde o crime organizado opera. Critica a tutela externa, mas cria as condições para que ela seja politicamente explorada. Fala em independência nacional, mas abandona justamente as regiões onde a independência precisa ser demonstrada em concreto.

No fim, a pergunta é simples: como o Brasil pretende impedir interferência estrangeira se não garante, com recursos, inteligência e força, o controle de suas próprias fronteiras? Soberania não é pose. Soberania é domínio efetivo do território. E, nesse episódio, o governo brasileiro deu ao crime organizado — e aos interesses externos — um presente estratégico.