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Manifesto da Palantir escancara a nova guerra pelo poder: inteligência artificial, soberania e militarização do Estado

: A Palantir, uma das empresas mais influentes do setor de dados, inteligência artificial e defesa dos Estados Unidos, provocou forte repercussão internacional ao publicar um manifesto de 22 pontos que resume a visão política de The Technological Republic, livro do CEO Alex Karp e de Nicholas Zamiska. O texto defende uma nova aliança entre Vale do Silício, Estado e indústria militar, sustenta que o “poder duro” do século XXI será construído por software

EPor Eduardo Carvalho
21 de abr. de 20261 Visitas
Manifesto da Palantir escancara a nova guerra pelo poder: inteligência artificial, soberania e militarização do Estado

A publicação do manifesto da Palantir no X, em 18 de abril de 2026, não pode ser lida apenas como uma provocação corporativa. Trata-se de uma declaração de doutrina. A empresa, conhecida por atuar com governos, forças armadas, agências de inteligência e grandes corporações, apresentou ao público uma visão de mundo na qual tecnologia, defesa nacional, inteligência artificial e destino civilizacional passam a formar um único bloco político. Segundo a cobertura internacional, o texto é uma síntese em 22 pontos do livro The Technological Republic, escrito por Alexander C. Karp, cofundador e CEO da Palantir, e Nicholas W. Zamiska, executivo ligado à área jurídica e institucional da companhia.

O eixo central do manifesto é simples e explosivo: o Vale do Silício, segundo a Palantir, teria uma dívida moral com os Estados Unidos e deveria abandonar a obsessão por aplicativos de consumo, redes sociais e produtos de conveniência para se engajar diretamente na defesa da nação. A empresa afirma que “e-mail gratuito não é suficiente”, critica o que considera decadência cultural das elites tecnológicas e defende que a próxima fase da supremacia ocidental dependerá da integração entre software, inteligência artificial e aparato militar.

A Palantir não é uma empresa qualquer fazendo filosofia de internet. Em seu relatório anual de 2025, a própria companhia afirma ter sido fundada em 2003 e ter começado desenvolvendo software para a comunidade de inteligência dos Estados Unidos, com foco em investigações e operações de contraterrorismo. Hoje, ela opera quatro plataformas principais: Gotham, Foundry, Apollo e AIP, esta última voltada à inteligência artificial generativa aplicada a organizações privadas e governos.

Essa dimensão é essencial para compreender a gravidade do manifesto. A Palantir não vende apenas ferramentas administrativas. Seu sistema Gotham é descrito pela própria empresa como uma plataforma capaz de integrar dados de múltiplos domínios e sensores em quase tempo real, ampliando a consciência situacional e acelerando decisões operacionais no campo de batalha. Já o Foundry funciona como um sistema operacional de dados para organizações; e o AIP conecta modelos de IA a dados, processos e decisões institucionais.

A companhia afirma ter 954 clientes ao fim de 2025 e ter gerado US$ 4,5 bilhões em receita naquele ano, sendo 54% vindos do segmento governamental. Também informa que 74% de sua receita veio de clientes dos Estados Unidos e 26% de clientes internacionais. Em outras palavras: a Palantir é, simultaneamente, uma empresa comercial global, uma fornecedora de governos e uma peça relevante do ecossistema de defesa e inteligência norte-americano.

O manifesto ganha peso justamente porque a Palantir deixa de se apresentar como uma fornecedora neutra de tecnologia. O texto reivindica um papel político e estratégico para as empresas de software: elas deveriam participar da defesa nacional, desenvolver capacidades militares e disputar a arquitetura tecnológica do mundo. Segundo a Al Jazeera, o livro e sua síntese defendem que empresas tecnológicas norte-americanas têm uma “dívida moral” com os EUA e que o país precisa de “poder duro” alimentado por software para manter sua posição global.

O ponto mais sensível está na naturalização das armas de inteligência artificial. A Palantir sustenta que a questão não é se armas de IA serão construídas, mas quem as construirá e com qual finalidade. O argumento desloca o debate ético: em vez de perguntar se determinados sistemas devem existir, o manifesto parte da premissa de que eles existirão inevitavelmente — e que, portanto, o Ocidente deve produzi-los antes dos adversários.

Essa lógica é a espinha dorsal de uma nova corrida armamentista. No século XX, a dissuasão nuclear foi apresentada como o grande equilíbrio do terror. No século XXI, a Palantir sugere que a dissuasão será algorítmica: sistemas de vigilância, seleção de alvos, integração de bancos de dados, análise preditiva, automação decisória e capacidade militar distribuída por software. O campo de batalha, nessa visão, deixa de ser apenas territorial e passa a ser informacional.

Críticos classificaram a proposta como uma doutrina de militarização da inteligência artificial. A Al Jazeera registrou reações duras, incluindo a acusação de “tecnofascismo” feita pelo filósofo Mark Coeckelbergh e críticas de Yanis Varoufakis, que enxergou no manifesto a soma do risco nuclear ao risco existencial da IA militarizada.

Outro ponto polêmico é a crítica da Palantir ao “pluralismo vazio e oco”. Segundo a cobertura da Al Jazeera, a síntese do livro afirma que algumas culturas produziram avanços vitais, enquanto outras permaneceriam disfuncionais. A frase acendeu alerta porque aproxima o manifesto de uma leitura civilizacional da geopolítica: não se trataria apenas de competição entre Estados, mas de confronto entre modelos culturais, políticos e morais.

Nesse ponto, a Palantir cruza uma fronteira delicada. Uma empresa privada que fornece sistemas para governos passa a declarar, publicamente, que seus produtos estão inseridos em uma disputa civilizacional. O problema é evidente: se um Estado contrata essa tecnologia para educação, saúde, segurança pública, fronteiras ou defesa, ele está comprando apenas software ou também importando uma visão de mundo embutida na arquitetura do sistema?

A controvérsia aumenta quando o manifesto defende rever a contenção militar imposta à Alemanha e ao Japão após a Segunda Guerra Mundial. A crítica de analistas é que esse ponto sugere a revisão de parte da arquitetura de segurança internacional construída depois de 1945. Para defensores da Palantir, seria uma adaptação necessária a um mundo mais perigoso; para críticos, é uma defesa de rearmamento global conveniente a uma empresa cujo mercado cresce justamente quando governos aumentam gastos em defesa.

A discussão não é abstrata. A Palantir já está no centro de contratos militares importantes. A Reuters noticiou que o Pentágono concedeu à empresa, em 2024, um contrato de até US$ 480 milhões para o Maven Smart System, ligado ao uso de IA em inteligência militar, e que em 2025 o teto desse contrato foi elevado para US$ 1,3 bilhão.

A empresa também aparece em debates sobre imigração e vigilância nos Estados Unidos. Segundo o American Immigration Council, o ICE firmou contrato de US$ 30 milhões com a Palantir para o desenvolvimento do ImmigrationOS, uma plataforma de IA e mineração de dados voltada à identificação, rastreamento e deportação de suspeitos de estarem irregularmente no país.

Isso transforma o manifesto em algo mais do que propaganda ideológica. A Palantir defende uma tese ao mesmo tempo em que vende a infraestrutura capaz de materializá-la. Quando afirma que o futuro do poder será software, está também dizendo que empresas como ela serão intermediárias centrais do poder estatal. O risco, aqui, é a fusão entre soberania pública e lógica corporativa: decisões de segurança, fronteira, guerra, saúde e educação passam a depender de plataformas privadas, fechadas, estrangeiras e orientadas por interesses próprios.

No Brasil, a questão ganha contornos ainda mais sensíveis. O FNDE informou, em 2024, que apresentou casos de uso de inteligência artificial em evento promovido por AWS, Palantir e Serpro, e que a Palantir fazia parte do ecossistema do marketplace da AWS por meio do qual o FNDE tinha acesso a soluções digitais. Na mesma página, um executivo da Palantir afirmou que a empresa estava feliz em trazer tecnologia, IA e manejo de dados ao Brasil, enquanto representante do Serpro disse que a estatal viabilizava o acesso do FNDE às ferramentas da AWS e da Palantir.

O próprio relatório de gestão de tecnologia da informação do FNDE registra uma “POC Palantir PNATE”, destinada a apresentar uma solução sistemática para o Programa Nacional de Apoio ao Transporte Escolar. O PNATE, por sua vez, é um programa que apoia o transporte de estudantes da educação básica pública residentes em áreas rurais, com repasses automáticos a estados, municípios e Distrito Federal.

A pergunta política é inevitável: que tipo de dados uma empresa estrangeira deve poder acessar, processar ou estruturar dentro de políticas públicas brasileiras? Mesmo quando se trata de prova de conceito, modernização administrativa ou ferramenta de apoio, a discussão não pode ser reduzida a eficiência. Dados educacionais, territoriais, sociais e logísticos são ativos estratégicos. Eles descrevem a população, o Estado e suas vulnerabilidades.

Defensores desse tipo de contratação argumentam que ferramentas avançadas de IA podem melhorar a gestão pública, identificar fraudes, acelerar decisões, reduzir desperdícios e ampliar a capacidade estatal. Esse argumento não é irrelevante. O próprio FNDE vem defendendo o uso estratégico de dados e inteligência artificial para aprimorar políticas educacionais em larga escala, envolvendo milhares de escolas e milhões de estudantes.

Mas a eficiência não encerra a questão. O problema é quem controla a infraestrutura, quem audita os algoritmos, quem define os critérios de risco, onde os dados são processados, quais empresas têm acesso ao ambiente, quais leis estrangeiras podem incidir sobre o fornecedor e qual é a dependência criada no médio prazo. Soberania digital não é discurso contra tecnologia; é a exigência de que tecnologia crítica esteja submetida ao interesse nacional, ao controle público e à transparência democrática.

O manifesto da Palantir expõe uma contradição que muitos governos preferiam manter escondida. Países que falam em autonomia estratégica, soberania de dados e independência tecnológica continuam contratando plataformas privadas estrangeiras para funções sensíveis. O resultado é uma espécie de terceirização silenciosa do cérebro do Estado. Não se terceiriza apenas armazenamento ou painel de controle; terceiriza-se a forma de enxergar problemas, classificar riscos e organizar decisões.

A Palantir, nesse sentido, tornou explícito aquilo que antes ficava diluído em linguagem corporativa. A empresa não se vê apenas como prestadora de serviço. Ela se vê como parte de um projeto político do Ocidente, mais especificamente dos Estados Unidos e de seus aliados. O site oficial de The Technological Republic descreve o livro como uma crítica à complacência do Vale do Silício e como um chamado para que a indústria de software retome o compromisso com desafios urgentes, incluindo a nova corrida armamentista da inteligência artificial.

O debate, portanto, não é entre tecnologia e atraso. É entre soberania e dependência. Entre capacidade estatal própria e captura por fornecedores estratégicos. Entre inteligência artificial submetida ao bem comum e inteligência artificial incorporada a uma doutrina de poder militar permanente.

O manifesto da Palantir pode ser lido como exagero retórico, marketing agressivo ou filosofia corporativa. Mas também pode ser lido como um aviso. A nova disputa mundial não será travada apenas com tanques, satélites, submarinos ou mísseis. Será travada com bancos de dados, nuvens, modelos de IA, sistemas de vigilância, plataformas de decisão e empresas capazes de transformar informação em comando.

E é por isso que o tema exige resposta política. Governos que utilizam sistemas como os da Palantir precisam explicar quais dados estão envolvidos, quais garantias foram estabelecidas, que auditorias independentes existem, que alternativas nacionais foram avaliadas e que limites impedem que uma empresa estrangeira transforme políticas públicas em dependência tecnológica.

O manifesto não criou esse problema. Apenas arrancou a máscara. A Palantir disse, com todas as letras, que software é poder. Cabe aos Estados nacionais decidirem se continuarão tratando esse poder como simples contrato de prestação de serviço — ou se finalmente entenderão que, no século XXI, soberania também se escreve em código.