Cultura

O Evangelho da Modernidade

A indústria do cinema e audiovisuais como arautos do Anticristo

GPor Gabriel Sapucaia
21 de fev. de 202653 Visitas
O Evangelho da Modernidade

Há evangelhos que se anunciam do púlpito. Outros, da cátedra universitária. O nosso, porém, é anunciado no horário nobre.

Ele não começa com “bem-aventurados”, mas com uma vinheta. Não termina com “amém”, mas com “continua no próximo capítulo”. E, no entanto, prega — e muito.

Vivemos imersos em narrativas. O cinema e as novelas não são apenas entretenimento; são pedagogias emocionais. Ensinaram-nos como amar, como odiar, como desejar, como nos indignar. Moldaram nossa imaginação muito antes de moldarem nossa opinião. E é aí que reside sua força.

Não se trata de teorias conspiratórias ou de negar a arte como tal. O cinema pode ser sublime. Pode elevar. Pode revelar a grandeza e o drama humano com profundidade quase trágica. O problema começa quando a exceção vira regra — e a regra passa a ser a dissolução.

Observe com calma. Quantos filmes recentes apresentam um horizonte moral claro? Quantos ainda ousam falar de verdade objetiva, de bem e mal como realidades discerníveis? Em vez disso, multiplicam-se as histórias em que tudo é ambíguo. O traidor é compreensível. O vilão é vítima das circunstâncias. A virtude é ingenuidade. A fidelidade é repressão. A norma é opressão.

A ambiguidade, recurso legítimo da arte, converteu-se em método cultural. Ela já não provoca reflexão; provoca relativização. E a relativização constante, repetida em milhares de histórias, produz um efeito cumulativo: nada é estável, nada é definitivo, nada é sagrado.

As novelas desempenham papel ainda mais silencioso — e talvez mais profundo. Entram diariamente nas casas, acompanham jantares, conversas, rotinas. E ali, capítulo após capítulo, redefinem o normal. O matrimônio torna-se frágil por definição. A ruptura vira autodescoberta. A sexualidade, deslocada de qualquer finalidade mais alta, transforma-se em linguagem universal de afirmação pessoal.

Não é preciso nudez explícita para haver erotização. Basta a sugestão constante. Basta a insinuação repetida. A pedagogia da sugestividade é eficaz porque não se impõe; ela se infiltra. Quando se percebe, já moldou expectativas, já redesenhou limites.

E quanto ao transcendente? Quase sempre ausente. O universo audiovisual contemporâneo é, em grande parte, fechado sobre si mesmo. Quando surge alguma espiritualidade, ela aparece diluída, esotérica, marcada por ideias de “despertar”, “energia”, “realidade oculta” — um espiritualismo difuso que lembra mais o antigo gnosticismo do que qualquer metafísica clássica. A matéria é prisão, a verdade é interior, a salvação é autoconhecimento. Soa profundo. Mas é também profundamente individualista.

No fundo, o que se anuncia não é apenas um estilo artístico, mas uma antropologia. Um homem sem finalidade última. Uma liberdade definida como rompimento permanente de vínculos. Um mundo onde o sentido não é descoberto — é inventado.

E aqui está o ponto mais delicado: ninguém acorda um dia e decide abandonar suas convicções por causa de um filme. Mas após milhares de horas de exposição a narrativas que normalizam a desordem, a exceção torna-se regra. O extraordinário torna-se banal. O impensável torna-se discutível. O discutível torna-se aceitável.

Esse é o verdadeiro poder da imagem: ela forma antes de convencer.

Talvez a chamada grande revolução cultural do nosso tempo não tenha sido feita por decretos, mas por roteiros. Não por discursos inflamados, mas por personagens carismáticos. Não por tratados filosóficos, mas por séries maratonadas em um fim de semana.

Nada disso significa que devamos demonizar telas ou rejeitar a arte. Significa apenas que precisamos reaprender a assistir. Perguntar: que visão de homem está sendo apresentada? Que ideia de amor? Que concepção de liberdade? Há transcendência ou apenas sensação? Há ordem ou apenas fluxo?

Porque todo evangelho forma discípulos. E o da modernidade não exige fé explícita — basta audiência.

No fim, a pergunta não é se estamos sendo evangelizados. A pergunta é: por quem?