Cultura

O Início do Filosofar: Como a filosofia nasce da inquietude diante do real e se eleva da experiência sensível à busca do Ser e da sabedoria

Em meio ao ruído do tecnicismo e à dispersão do pensamento contemporâneo, a filosofia reaparece como um gesto originário do espírito humano: o espanto diante do ser. Não se trata de curiosidade passageira nem de opinião subjetiva, mas de uma inquietação profunda que arranca o homem do automatismo cotidiano e o conduz à pergunta decisiva — o que é?. É nesse movimento, enraizado na razão e fiel ao real, que o filosofar revela sua vocação própria: buscar o ser, ordenar a vida e reconduzir a inteligência à verdade que unifica conhecer e viver.

JPor João Jorge Neto
10 de fev. de 202652 Visitas
O Início do Filosofar: Como a filosofia nasce da inquietude diante do real e se eleva da experiência sensível à busca do Ser e da sabedoria

Muito se questiona sobre o início do filosofar; afinal, como se inicia a filosofia? Qual é a sua finalidade? Ora, a filosofia nasce de uma inquietação, de um espanto diante do real que se apresenta perante o homem, o qual, em um momento de despreocupação ou de lazer, questiona-se acerca do que são as coisas que o cercam, tentando elaborar um conceito mental que corresponda às notas essenciais daquilo que se apresenta perante ele. Embora, historicamente, a filosofia tenha começado na Grécia, ela pode surgir em qualquer período histórico em que o homem, em sua circunstância vital, em contato com a cultura perene e com os grandes filósofos, decida-se por usar a faculdade anímica superior que o caracteriza como humano, a saber, a razão, buscando responder às questões que sempre angustiaram todos os homens de todas as épocas.

É importante diferenciar esse espanto (θαῦμα) da mera curiosidade vã. Esta se dissipa rapidamente, não forma uma unidade no espírito humano capaz de fazer com que o sujeito se eleve, buscando se aperfeiçoar para responder aos questionamentos formulados. Aquela, ao contrário, unifica-se cada vez mais, retira o homem do automatismo tecnicista da vida cotidiana e provoca uma inquietude que é o estímulo para querer se aprofundar no real, se autoaperfeiçoar e buscar aquilo que é o mais importante em filosofia: o Ser (εἶναι), em seus sentidos mais fundamentais. Há, assim, uma mudança de postura. Já não se pergunta “para que serve isso?”, mas “o que é isso?”, gestando, desse modo, uma mudança de perspectiva e de orientação existencial, pois, como disse Aristóteles no início de sua Metafísica, todos os homens desejam por natureza conhecer (Metafísica, 980a 21).

Filosofar, portanto, é um ato profundamente humano. Por meio da razão e ancorado na tradição que o precede, o homem busca ultrapassar o particular e o contingente, elevando-se ao universal. Ao formular conceitos, ele tenta apreender a essência das coisas, isto é, aquilo que elas são para além das aparências. Nesse sentido, a filosofia não é um exercício de mera subjetividade relativista, mas um esforço de fidelidade ao real. Não se trata de impor impressões particulares ao mundo, mas de conformar a inteligência à verdade das coisas, em uma unificação da subjetividade e da objetividade (verum) pelo Ser.

Essa fidelidade despretensiosa, sem uma exigência útil, ao real é precisamente o que permite à razão humana ultrapassar o âmbito das ciências particulares e alcançar aquilo que a tradição, a partir do neoplatonismo, denominou metafísica. Com efeito, enquanto as ciências e as artes investigam o ente sob determinações específicas, a metafísica tem por objeto o ente enquanto ente, isto é, aquilo que convém a tudo o que é na medida mesma em que é, ascendendo rumo ao Ser, aos Princípios e às Causas, entre elas Deus (θεός), sem ultrapassar os limites da razão humana. Seu ponto de partida não é uma construção subjetiva da consciência, mas a realidade tal como se apresenta à inteligência, que, a partir da experiência sensível, abstrai as formas inteligíveis e apreende o ser em sua universalidade. O movimento próprio da razão é ascendente: parte do ente concreto e contingente, apoiado nos ombros dos investigadores anteriores, para alcançar aquilo que é necessário e primeiro, culminando na investigação do princípio supremo do ser. O seu objeto, a sabedoria, no entanto, sempre lhe escapa, pois permanece em uma busca constante que só se realiza na unificação do filósofo com a sabedoria, tornando-se sábio. É nesse sentido que Aristóteles compreende esse saber como Filosofia Primeira, que sempre se busca, e funda a chamada Teologia Natural.

Tal compreensão permite evitar um equívoco recorrente, segundo o qual a filosofia, e sobretudo a metafísica, seria um saber desligado da vida concreta. Ao contrário, ao buscar o ser e a verdade, a filosofia fornece os fundamentos racionais que tornam possível a ordenação da vida humana: uma ontologia da ação humana, individual ou em sociedade, estudada na Ética, na Antropologia Filosófica, na Economia Doméstica/Economia, no Direito e na Política. Não há ação reta sem conhecimento verdadeiro, assim como não há vida boa sem uma compreensão, ainda que inicial, daquilo que o homem é e do fim ao qual se ordena. Por isso, a filosofia unifica a vida prática e a vida teorética em sua integralidade. Os antigos tinham plena consciência dessa dimensão existencial da filosofia. Para eles, filosofar não era apenas conhecer, mas formar o espírito, ordenar os afetos e conformar a vida à razão. A sabedoria, entendida como culminância do saber filosófico, consistia justamente nessa unidade entre verdade conhecida e vida vivida. A filosofia, assim compreendida, não afasta o homem do mundo, mas o reconcilia com o real, livrando-o da dispersão e do reducionismo próprios de uma vida puramente utilitária.

Todavia, ao avançar na investigação do ser, a razão humana depara-se com seus próprios limites. A análise metafísica revela que os entes que nos cercam são contingentes e dependentes, isto é, não possuem em si mesmos a razão última de seu existir. Essa constatação não encerra o filosofar, mas o aprofunda, pois conduz a inteligência à necessidade de um fundamento que seja ser por essência e não por participação. A inquietude do espírito, longe de ser eliminada, é elevada a um novo patamar. Nesse horizonte, a fé cristã não se apresenta como negação da razão, mas como sua plena iluminação. A tradição cristã sempre reconheceu o valor da filosofia enquanto preparação para a fé, uma vez que ambas se originam do mesmo anseio pela verdade. Se a razão busca o ser em seus princípios últimos, a fé revela que esse princípio é pessoal e inteligível, o Logos pelo qual todas as coisas foram feitas, pois os dados da Revelação também fazem parte do real e, portanto, podem e devem ser investigados pela metafísica, preparando o caminho para a fé (Edith Stein, Ser Finito e Ser Eterno, Introdução: A Questão do Ser, § 4, Sentido e Possibilidade de uma “Filosofia Cristã”). Assim, fé e razão, cada qual em seu domínio próprio, convergem para a verdade una. Nesse sentido, o catolicismo é a continuação e o aperfeiçoamento da filosofia, sendo Cristo a grande autoridade, o Deus-Filósofo por excelência, que tem junto de si a razão, sem abandoná-la, como explica Santo Agostinho no Diálogo Contra os Acadêmicos, Livro III (20, 43).

Em um contexto marcado pelo tecnicismo, pelo relativismo e pela redução do pensamento à opinião, recuperar o autêntico espírito filosófico torna-se uma tarefa urgente. Voltar a perguntar pelo ser, pela verdade e pelo sentido último da existência não é um exercício anacrônico, mas uma exigência própria da condição humana. Sendo uma obrigação do filósofo católico manter-se em constante diálogo com os homens de seu tempo, sem se deixar dominar pelo “espírito do tempo” (Zeitgeist), deve seguir a máxima de São Paulo Apóstolo: “Examinai tudo e ficai com o que é bom” (1Ts 5, 21) e tornar-se santo, pois somente o santo é a realização do ideal do sábio.