Política

O intocável Supremo Tribunal Federal.

Está ficando cada vez mais nítido a impossibilidade, não mais apenas de criticas os ministros do Supremo Tribunal Federal, mas tudo leva a crer que até mesmo investigar os ministros por supostos desvios de conduto será considerado um ato "contra a democracia".

FPor Felipe Lencioni
17 de abr. de 20264 Visitas
O intocável Supremo Tribunal Federal.

O episódio começa com um movimento típico, ao menos em teoria, do funcionamento democrático: uma Comissão Parlamentar de Inquérito. No caso, a chamada “CPI do crime organizado”, relatada pelo senador Alessandro Vieira, que, ao final de seus trabalhos, apresentou um relatório sugerindo o indiciamento de diversas autoridades, entre elas o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes.

A partir daí, o que deveria ser um desdobramento institucional, com análise do conteúdo pelas autoridades competentes, ganhou um contorno mais tenso. Gilmar Mendes reagiu duramente ao relatório, classificando-o como abusivo e anunciando que acionaria a Procuradoria-Geral da República para que o senador fosse investigado por possível excesso ou irregularidade em sua atuação. Em resposta, Alessandro Vieira afirmou que a medida tinha caráter intimidatório e não alteraria sua postura.

Até aqui, temos os fatos: um senador cumpre sua função de relatar uma investigação parlamentar e um ministro reage utilizando instrumentos legais para contestar essa atuação. Formalmente, tudo pode até parecer dentro das “regras do jogo”. Mas é justamente aí que começa o desconforto e, convenhamos, um certo ar de absurdo.

Porque, se formos levar a sério a lógica apresentada, chegamos a uma conclusão curiosa: o problema não é o que foi investigado, mas o fato de alguém ter ousado investigar. O relatório deixa de ser debatido em seu mérito, se está certo, errado, exagerado e passa a ser tratado quase como uma afronta pessoal. E aí o foco muda: em vez de discutir os fatos, discute-se o investigador.

E que ironia elegante essa: um senador, investido de sua função constitucional de fiscalizar, se vê na posição de potencial investigado por ter fiscalizado. É como se o recado fosse sutil, mas claro: “Você é livre para exercer seu mandato, desde que não cruze certas linhas invisíveis.”

Claro, dirão alguns, trata-se apenas de uma reação jurídica legítima. E, tecnicamente, pode até ser. Mas política e institucionalmente, o gesto carrega um peso simbólico difícil de ignorar. Quando uma figura de enorme poder reage dessa forma, a mensagem que ecoa não é apenas jurídica, é também política, e até psicológica.

E aqui entra o ponto mais incômodo: não se trata apenas de um embate entre duas figuras públicas. Trata-se do sinal que isso envia para qualquer outro parlamentar. Afinal, qual é o incentivo? Investigar profundamente, correndo o risco de retaliações? Ou agir com cautela seletiva, evitando nomes “sensíveis”?

No fim, tudo isso revela uma tensão que vai além do caso específico. Mostra um cenário em que as instituições continuam funcionando sim, mas onde os limites parecem cada vez mais marcados não pela lei em si, e sim pelo peso de quem está sendo confrontado.

E talvez seja essa a parte mais preocupante de toda a história. Porque uma democracia não enfraquece apenas quando alguém desobedece às regras. Às vezes, ela se desgasta justamente quando tudo acontece “dentro da legalidade” mas com um espírito que faz parecer que certas perguntas simplesmente não deveriam ser feitas.