O perigoso interesse internacional às terras raras brasileiras.
O crescente interesse internacional pelas terras raras do Brasil acende um alerta legítimo, esses recursos estratégicos são essenciais para tecnologia, defesa e soberania econômica. A abertura descontrolada a interesses estrangeiros pode comprometer o controle nacional dessas riquezas. Sem planejamento e proteção, o país corre o risco de repetir ciclos históricos de exploração externa, defender essas reservas é, acima de tudo, defender o futuro e a autonomia do Brasil.

A recente movimentação em torno das terras raras no estado de Goiás reacende um debate que o Brasil jamais deveria ter abandonado: o controle soberano sobre suas riquezas estratégicas. Embora os acordos firmados com os Estados Unidos em 2024 e 2025 sejam apresentados como parcerias técnicas e oportunidades de investimento, é necessário analisar com rigor o que está realmente em jogo e quais riscos históricos estamos prestes a repetir.
O Brasil possui uma das maiores reservas de terras raras do mundo, com destaque para regiões de Goiás e Minas Gerais. Esses minerais são essenciais para a indústria de alta tecnologia: estão presentes em turbinas eólicas, baterias de veículos elétricos, chips eletrônicos, equipamentos médicos e sistemas militares. Não por acaso, desde a década de 2010, potências como os Estados Unidos intensificaram sua busca por fontes alternativas a fim de reduzir a dependência da China, que hoje domina a produção global desses elementos.
É nesse contexto que surgem os acordos recentes. Em 2024, o governo de Goiás assinou um memorando de entendimento com representantes dos Estados Unidos para cooperação na área de minerais críticos. Em 2025, esse movimento se aprofundou com investimentos diretos e a consolidação de contratos que garantem fornecimento de terras raras a empresas vinculadas ao mercado norte-americano. No mesmo período, a mineradora brasileira Serra Verde, localizada em Minaçu (GO), passou a receber financiamento estrangeiro significativo e, posteriormente, foi adquirida por um grupo empresarial ligado aos EUA.
À primeira vista, tudo isso pode parecer apenas parte natural da economia global. No entanto, uma análise mais cuidadosa revela um padrão preocupante: o Brasil continua ocupando o papel de exportador de matéria-prima, enquanto o valor agregado, tecnologia, industrialização e produção final, permanece concentrado fora do país. Esse modelo não é novo. Ele remonta ao período colonial, quando nossas riquezas naturais eram exploradas para alimentar economias estrangeiras, sem gerar desenvolvimento interno proporcional.
A questão central, portanto, não é a existência de parcerias internacionais, mas os termos sob os quais elas ocorrem. Quando empresas estrangeiras passam a controlar etapas críticas da cadeia produtiva — da extração à comercialização, o país perde autonomia estratégica. E isso se agrava quando não há uma política nacional sólida que garanta contrapartidas claras, como transferência de tecnologia, industrialização local e fortalecimento da indústria brasileira.
Do ponto de vista legal, é importante lembrar que, conforme a Constituição de 1988, os recursos minerais pertencem à União. Ou seja, não podem ser tratados como simples ativos negociáveis em acordos regionais ou interesses empresariais isolados. Qualquer movimentação nesse setor deve estar subordinada a um projeto nacional de desenvolvimento, algo que, até o momento, parece ausente ou fragmentado.
Outro ponto crítico é o precedente que está sendo criado. Se o Brasil aceita, sem grande resistência, a crescente presença estrangeira em um setor tão estratégico quanto o de terras raras, o que impedirá que o mesmo ocorra com outros recursos essenciais no futuro? Água, biodiversidade, energia, todos são ativos de interesse global crescente. A ausência de uma postura firme hoje pode comprometer decisões futuras.
É preciso também considerar o cenário geopolítico. A disputa por terras raras não é apenas econômica; é estratégica. Em um mundo cada vez mais polarizado, o controle desses minerais significa poder. Ao permitir que uma potência estrangeira garanta acesso privilegiado a essas reservas, o Brasil corre o risco de se tornar peça em um jogo maior, sem exercer protagonismo real.
Diante disso, a posição que se impõe não é de isolamento, mas de firmeza. O Brasil deve, sim, dialogar com o mundo e atrair investimentos, mas sob claros e vantajosos para o interesse nacional. Isso inclui exigir participação majoritária nacional em projetos estratégicos, desenvolver tecnologia própria, investir em refino e industrialização interna e garantir que a riqueza gerada permaneça no país.
Soberania não é um conceito abstrato. Ela se manifesta na capacidade de um país decidir o destino de seus próprios recursos, sem depender de interesses externos. Ao longo da história, sempre que o Brasil abriu mão desse princípio, o resultado foi dependência, desigualdade e atraso.
As terras raras representam uma oportunidade única de romper esse ciclo. Mas, se mal conduzidas, podem se tornar apenas mais um capítulo de exploração disfarçada de parceria. O momento exige lucidez, responsabilidade e, acima de tudo, compromisso com o futuro do país.