Rentismo no Brasil: o obstáculo estrutural ao desenvolvimento nacional
O Brasil enfrenta uma encruzilhada histórica: reconstruir um projeto nacional de desenvolvimento baseado na produção, na inovação e na integração entre capital e trabalho, ou permanecer subordinado a um modelo rentista que privilegia a especulação financeira e aprofunda a desindustrialização. O recente caso envolvendo o Banco Master e seus desdobramentos institucionais expõe não apenas um escândalo pontual, mas um problema estrutural — a promiscuidade entre alta finança e poder estatal. A escolha que se impõe não é entre Estado e mercado, mas entre produção e renda fácil.

O Brasil vive um impasse estrutural. De um lado, fala-se em crescimento, inovação, modernização produtiva. De outro, preserva-se intacto um modelo econômico que privilegia a renda fácil, a financeirização e a dependência externa. Não há mais espaço para ilusões: ou reconstruímos um projeto nacional de desenvolvimento que una capital e trabalho, ou continuaremos submetidos ao ciclo de desindustrialização e captura rentista do Estado.
Durante décadas, o receituário consagrado pelo chamado Washington Consensus foi apresentado como inevitável. Abertura irrestrita, desregulação, primazia do capital financeiro e retração do Estado seriam o caminho natural da modernização. O que vimos, porém, foi a fragilização da indústria, a dependência tecnológica e a consolidação de uma elite econômica cada vez mais voltada à especulação e à extração de renda.
Enquanto isso, as nações que hoje figuram como potências industriais seguiram trajetória distinta. A Coreia do Sul, por exemplo, estruturou seu desenvolvimento articulando Estado forte, planejamento estratégico e grandes grupos empresariais comprometidos com metas nacionais. Como lembra o economista Ha-Joon Chang, os países desenvolvidos historicamente utilizaram proteção e política industrial antes de defenderem o livre-mercado para os demais.
A lição é evidente: não existe desenvolvimento consistente sem projeto nacional.
Mas no caso brasileiro há um obstáculo adicional — e decisivo. Nossa elite econômica não é apenas liberal; ela é estruturalmente rentista. Vive de juros elevados, de privilégios regulatórios, de contratos protegidos e de intermediações financeiras que pouco agregam à economia real. Em vez de investir em indústria, tecnologia e produtividade, grande parte dela prefere a segurança da renda financeira garantida.
O problema não é apenas econômico; é moral e institucional.
O escândalo envolvendo o Banco Master expôs, de forma emblemática, como setores do sistema financeiro podem operar na fronteira da fraude e da manipulação institucional. As investigações conduzidas pela Polícia Federal mencionaram conexões sensíveis e provocaram desdobramentos no Supremo Tribunal Federal. O ministro Dias Toffoli deixou a relatoria do caso, que passou ao ministro André Mendonça. Independentemente das responsabilidades individuais — que cabem à Justiça apurar — o episódio revela algo mais profundo: a promiscuidade recorrente entre alta finança e poder institucional.
Uma elite que prospera pela usura e pela captura do Estado não tem incentivo para liderar um projeto nacional de desenvolvimento. Ao contrário: sua racionalidade econômica é extrair o máximo no curto prazo, mesmo que isso comprometa o futuro coletivo.
Por isso, falar em economia corporativa nacional — no sentido de integrar capital e trabalho em torno de metas estratégicas comuns — exige enfrentar o problema do rentismo. Não se trata de retórica inflamada, mas de constatação estrutural: é impossível reconstruir a base produtiva do país mantendo intactos os mecanismos que premiam a especulação e penalizam o investimento produtivo.
Uma economia corporativa, aqui defendida, não é autoritarismo econômico. É coordenação nacional. Significa:
orientar o crédito para a produção e a inovação;
incentivar uma burguesia comprometida com reinvestimento interno;
garantir participação dos trabalhadores na governança estratégica;
fortalecer ciência e tecnologia nacionais;
condicionar políticas públicas a metas de desenvolvimento produtivo.
Mas nada disso prosperará se o sistema financeiro continuar organizado prioritariamente para remunerar capital improdutivo.
A primazia da questão nacional implica uma escolha: subordinar o mercado ao interesse coletivo ou continuar subordinando o país à lógica da renda fácil. Significa reestruturar incentivos, reformar a tributação sobre rendas financeiras, fortalecer mecanismos de responsabilização por fraudes e romper com a cultura de privilégios.
Não se trata de hostilidade ao capital, mas de redefinir sua função histórica. Capital que investe, produz e inova é aliado do desenvolvimento. Capital que apenas extrai renda é obstáculo.
O Brasil não precisa escolher entre Estado e mercado. Precisa escolher entre produção e rentismo.
Se quisermos deixar de ser um território de exploração financeira e nos tornar uma nação soberana, teremos de reconstruir a aliança entre capital produtivo e trabalho organizado sob a égide do interesse nacional — e, ao mesmo tempo, desmontar o poder estrutural da elite rentista que bloqueia esse caminho.
Sem essa ruptura, continuaremos sendo mercado.
Com ela, poderemos voltar a ser projeto.