Formação e Doutrina

Sem Dom Marcel Lefebvre, a Missa Tridentina teria desaparecido

Em defesa de Dom Marcel Lefebvre.

EPor Eduardo Carvalho
5 de jul. de 20261 Visitas
Sem Dom Marcel Lefebvre, a Missa Tridentina teria desaparecido

É possível discutir determinadas decisões de Dom Marcel Lefebvre, especialmente as sagrações episcopais de 1988. O que não é possível, sem falsear a história, é negar que a sobrevivência da Missa Tridentina na Igreja contemporânea se deve, em grande medida, à coragem, à perseverança e à ação concreta do arcebispo francês.

Quando o novo rito da Missa foi introduzido, no final da década de 1960, a antiga liturgia romana não foi simplesmente colocada ao lado da nova como uma alternativa igualmente disponível. Na prática, ela foi retirada das paróquias, abandonada pelos seminários e tratada, em muitos lugares, como uma forma litúrgica destinada ao desaparecimento. O objetivo predominante não era conservar duas formas do rito romano, mas substituir a antiga pela nova.

É necessário compreender o que significa preservar uma liturgia. Não basta conservar alguns missais em bibliotecas, manter fotografias de cerimônias ou permitir que sacerdotes idosos celebrem privadamente até a morte. Uma liturgia só permanece verdadeiramente viva quando existem seminários que a ensinam, sacerdotes que a celebram, comunidades que a transmitem, coroinhas que aprendem a servi-la, famílias que educam seus filhos dentro dela e bispos capazes de ordenar novas gerações de padres.

Foi exatamente isso que Dom Marcel Lefebvre fez.

Em 1970, atendendo ao pedido de jovens que procuravam uma formação sacerdotal tradicional, ele fundou a Fraternidade Sacerdotal São Pio X e estabeleceu o seminário de Écône, na Suíça. Os seminaristas passaram a receber uma formação doutrinal, espiritual e litúrgica orientada pela tradição anterior às reformas pós-conciliares.

Essa foi a diferença fundamental entre Dom Lefebvre e quase todos os demais opositores à reforma litúrgica. Muitos escreveram cartas, organizaram abaixo-assinados, fundaram associações ou solicitaram indultos. Essas iniciativas tiveram o seu valor. Dom Lefebvre, porém, possuía algo que nenhuma associação de leigos poderia possuir: era bispo e, portanto, tinha a capacidade de formar e ordenar sacerdotes.

Sem novos sacerdotes, a antiga Missa morreria juntamente com a última geração de padres ordenados antes da reforma. Dom Lefebvre criou os meios concretos para que ela continuasse sendo celebrada.

À medida que os novos sacerdotes formados em Écône se espalharam por diversos países, surgiram priorados, capelas, escolas, missões e comunidades de fiéis. A Missa Tridentina deixou de depender exclusivamente de sacerdotes idosos ou de permissões ocasionais concedidas por bispos diocesanos. Ela voltou a possuir uma estrutura de transmissão e uma capacidade real de sobrevivência.

A prova mais contundente da centralidade de Dom Lefebvre encontra-se nas próprias decisões posteriores da Santa Sé.

Em 1984, João Paulo II concedeu, por meio do indulto Quattuor abhinc annos, uma possibilidade limitada de celebração segundo o Missal de 1962. Em 1988, depois das sagrações episcopais realizadas por Dom Lefebvre, o Papa publicou o motu proprio Ecclesia Dei, determinando que se facilitasse a permanência em plena comunhão de sacerdotes, seminaristas e comunidades até então ligados à Fraternidade São Pio X.

A Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, criada naquela ocasião, recebeu precisamente a tarefa de lidar com pessoas e comunidades vinculadas, de algum modo, à obra de Dom Lefebvre e à liturgia tradicional que ele havia preservado. Foi nesse contexto que nasceram ou se consolidaram diversas comunidades tradicionais reconhecidas por Roma, muitas vezes formadas por sacerdotes, seminaristas e fiéis provenientes do ambiente criado pela Fraternidade São Pio X.

Em outras palavras, Dom Lefebvre não preservou apenas a Missa dentro das capelas da Fraternidade. Sua atuação obrigou Roma a reconhecer que havia milhares de sacerdotes e fiéis profundamente ligados à antiga liturgia e que essa realidade não poderia simplesmente ser ignorada.

O movimento iniciado por ele criou as condições históricas para o indulto de 1984, para o motu proprio Ecclesia Dei de 1988 e, posteriormente, para o Summorum Pontificum de Bento XVI, em 2007. Bento XVI reconheceu que o Missal de 1962 jamais havia sido juridicamente ab-rogado e estabeleceu uma liberdade muito mais ampla para a sua celebração.

Naturalmente, isso não significa que Dom Lefebvre fosse juridicamente necessário para que o antigo Missal permanecesse válido. Significa, porém, que existe uma enorme diferença entre a existência jurídica de um rito e sua sobrevivência histórica. Um livro pode nunca ter sido formalmente proibido e, ainda assim, desaparecer da vida concreta da Igreja.

Sem Dom Lefebvre, talvez o antigo Missal tivesse permanecido guardado nos arquivos como uma relíquia da história da Igreja, ocasionalmente celebrado por algum sacerdote idoso ou por pequenos grupos tolerados. O que dificilmente existiria seria uma tradição litúrgica viva, internacional, fecunda e transmitida de geração em geração.

Sem os seminários de Écône, sem as ordenações sacerdotais, sem os priorados, sem as escolas e sem a resistência pública da Fraternidade, faltaria o núcleo institucional que manteve a antiga liturgia em funcionamento durante os anos em que quase todas as estruturas eclesiásticas trabalhavam pela sua substituição.

Também não se pode ignorar que muitas comunidades tradicionais hoje plenamente reconhecidas por Roma surgiram precisamente porque Dom Lefebvre havia demonstrado que era possível formar sacerdotes segundo a doutrina, a disciplina e a liturgia tradicionais. Mesmo aquelas que posteriormente se separaram da Fraternidade herdaram, direta ou indiretamente, o terreno histórico aberto pela obra lefebvriana.

Por isso, é insuficiente dizer que Dom Lefebvre foi apenas “um dos defensores” da Missa Tridentina. Ele foi o homem que garantiu sua continuidade sacerdotal. Outros conservaram livros, memórias, argumentos e devoções; Dom Lefebvre conservou o sacerdócio capaz de celebrar o rito.

Essa é a razão pela qual sua importância ultrapassa os limites da própria Fraternidade São Pio X. Todo católico que hoje assiste à Missa tradicional — mesmo em uma comunidade diocesana, beneditina ou ligada aos antigos institutos da Ecclesia Dei — participa de uma realidade histórica cuja preservação está profundamente ligada ao combate travado por ele.

Há, portanto, uma profunda ingratidão histórica em certos setores do tradicionalismo “continuísta”. Não é raro encontrar fiéis que frequentam a Missa Tridentina em comunidades oriundas da estrutura da Ecclesia Dei, mas que demonizam Dom Marcel Lefebvre e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, reduzindo toda a questão das sagrações episcopais de 1988 à simples acusação de cisma e repetem o mesmo com as novas sagrações.

Alguns tratam a Fraternidade com uma virulência que dificilmente empregam contra movimentos abertamente heréticos, como o Caminho Sinodal Alemão, cujos protagonistas contestam publicamente elementos da doutrina moral, da constituição hierárquica e da disciplina sacramental da Igreja. Parecem demonstrar maior indignação diante dos sacerdotes que conservam integralmente a Missa, a doutrina e a moral tradicionais do que diante daqueles que trabalham abertamente para revolucionar a Igreja por dentro.

Isso não significa que as decisões de Dom Lefebvre sejam intocáveis ou que não possam ser examinadas criticamente. Significa apenas que a honestidade intelectual exige, no mínimo, que se conheçam e se considerem seriamente os argumentos apresentados por ele e pela Fraternidade: a existência de um estado de necessidade na Igreja, a crise da formação sacerdotal, a difusão de erros doutrinais, a destruição prática da liturgia tradicional e o risco de desaparecimento de sua obra por falta de bispos capazes de ordenar novos sacerdotes.

Pode-se, depois de conhecer esses argumentos, concluir que eles não justificavam as sagrações. O que não se pode fazer de maneira honesta e razoável é recusá-los sem qualquer exame, como se Dom Lefebvre tivesse agido por mera rebeldia, ambição pessoal, desprezo pelo Papa ou desejo de fundar uma igreja paralela. Comparações de Dom Lefebvre com Lutero é pura desonestidade intelectual.

As sagrações de 1988 não surgiram repentinamente nem podem ser compreendidas fora do contexto de décadas de crise, negociações, promessas, recuos e incertezas. Dom Lefebvre estava idoso e acreditava que, depois de sua morte, toda a obra construída para a preservação do sacerdócio e da Missa tradicional poderia ser sufocada ou assimilada. Concorde-se ou não com sua conclusão, é necessário reconhecer que havia uma questão objetiva e gravíssima a ser enfrentada.

Muitos dos que hoje assistem tranquilamente à Missa Tridentina em ambientes canonicamente reconhecidos só possuem essa possibilidade porque, décadas antes, Dom Lefebvre recusou-se a aceitar o desaparecimento daquela liturgia. Usufruem de uma liberdade litúrgica conquistada, em grande medida, pela resistência de um homem que depois tratam como inimigo da Igreja.

Demonizar Dom Lefebvre, negar qualquer razoabilidade à tese do estado de necessidade e tratar a Fraternidade com mais hostilidade do que movimentos que atacam frontalmente a fé católica é cuspir no prato em que se comeu. É beneficiar-se da resistência lefebvriana enquanto se condena, sem ponderação e sem gratidão, o homem que tornou possível a sobrevivência daquilo de que hoje se desfruta.

Pode-se discordar de Dom Lefebvre em pontos particulares. Pode-se considerar que algumas de suas decisões foram prudentes ou imprudentes. Mas é intelectualmente desonesto desfrutar da Missa tradicional enquanto se apaga da história aquele que mais concretamente impediu sua extinção.

Dom Marcel Lefebvre não salvou a Missa porque tivesse autoridade para torná-la válida, pois nenhum homem é maior do que a liturgia da Igreja. Ele a salvou historicamente porque, no momento em que quase todos a abandonavam, recusou-se a abandoná-la; quando os seminários deixavam de ensiná-la, fundou seminários; quando faltavam sacerdotes, ordenou sacerdotes; quando se pretendia relegá-la ao passado, entregou-a às gerações futuras.

Sem ele, a Missa Tridentina talvez sobrevivesse nos livros. Graças a ele, sobreviveu nos altares