Sobre a Música e os Nomes
Há uma relação entre a linguagem e a Música? De que modo a arte da nomeação se assemelha com os aspectos da composição musical?

Nem todos nasceram para a arte da composição. A arte da música, por exemplo, exige do artista uma sensibilidade que lhe é própria, fazendo com que a ideia de seu artefato consiga, pelo menos em alguma medida, movimentar e suscitar as paixões daqueles que lhe ouvem. Um bom músico consegue fazer isso com maestria, porque alcançou, digamos, o entendimento harmônico — às vezes dissonante, é verdade — dos intervalos que há nas escalas, entre as notas, entre os acordes e etc.
O bom músico, tendo uma como intimidade com a matéria de sua arte — o som, no qual artificializa em notas musicais — , faz com que certas progressões e certas combinações melódicas e harmônicas apeteçam as paixões de seus ouvintes. Sabe se valer desta e daquela progressão de acordes, porque consegue perceber que essas combinações de intervalos produzem um efeito harmônico.
Mas o bom músico enxerga não somente as combinações harmônicas que produzem um efeito consonante, mas também sabe e consegue aplicar estes mesmos efeitos no momento certo de sua música, para que exista sentido naquilo que ele mesmo produz. Tendo dominado as regras harmônicas e a ciência ut docens de sua arte, ele sabe gerar os efeitos que quiser e no instante que quiser, regendo com maestria cada parte de sua peça musical e como que “capturando” todos aqueles que lhe ouvem tocar.
E aqui podemos perceber uma certa semelhança com o ofício da nomeação, que para Platão era uma arte, e, sendo arte, segue (também como o músico) a razão. Como se vê nos Umbrais da Filosofia (cap. 4, p. 233), do Pe. Calderón, assim como a música e a pintura imitam a aparência das coisas, os nomes devem imitar a essência das coisas.
“O nome, ao que parece, é a imitação de um objeto por meio da voz. Aquele que imita um objeto com a voz, o nomeia ao imita-lo […] Aquele que fosse capaz de imitar, por meio de letras e sílabas, o que em cada objeto constitui a essência, não representaria propriamente o que cada objeto é?” (Crátilo 423 “b” e “e”).
O Pe. Calderón destaca o que Sócrates diz em relação a algumas letras:
“A letra ‘r’, assinala Sócrates, é própria para expressar o movimento, pois ao pronuncia-la, a língua deve se agitar vigorosamente, enquanto a letra ‘g’ serve para significar o pegajoso e o doce, assim como a letra ‘l’ convém para o liso” (Ibid).
E conclui que “o bom artesão dos nomes deve ter buscado sons que correspondessem, na medida do possível, com as ideias a serem denominadas, dando sons suaves e harmoniosos para as ideias de coisas boas e nobres, escolhendo sons dissonantes para as essências de coisas desagradáveis”. E aqui está o elo entre a arte da nomeação e a arte da composição musical.
Enquanto o bom artesão de nomes se preocupa em encontrar sons que correspondam às ideias que precisam ser significadas, o bom músico — mais especificamente o bom músico e compositor, uma vez que nem todo músico compõe algo seu, mas por vezes só executa o que é de outro — se preocupa em aplicar harmonicamente aquilo que quer significar para os seus ouvintes.
Quer dizer, se a música trata de sentimentos de tristeza, solidão ou qualquer espécie de dor, o músico cuidará de aplicar intervalos que sejam ou dissonantes ou menores e com bastante uso de graus chamados dominantes, pois o efeito gerado será, em geral, melancólico, tensionado e pesado. É o que se vê, por exemplo, em Dies Irae (seja com Mozart, seja com Giuseppe Verdi), cujo tema central da música é o dia do juízo final, onde o temor de Deus prevalecerá nos condenados, pelo horror do castigo, e nos justos, pelo emprego da justiça.
Se, por outro lado, a música se pretende feliz e emocionante, o músico empreende os seus esforços para traçar combinações que sejam puramente consonantes, se valendo mais de acordes maiores do que de acordes menores. Mas a Música ainda tem uma certa vantagem em relação à arte da nomeação: a sua capacidade de, em uma mesma peça, conseguir facilmente alternar entre o feliz e o triste, o leve e o pesado, o maior e o menor.
Na clássica Nocturne Op.9 No.2, de Chopin, há uma clara e admirável variabilidade entre o feliz e o melancólico por toda a música, como se ela fosse um brinquedo nas mãos de seu artista. E por mais que os nomes também possam sofrer mudança — sobretudo se considerarmos os aspectos culturais e o desenvolvimento de cada sociedade — , essas mudanças se dão normalmente pela necessidade ou pelo avanço da língua (às vezes pelo regresso dela, infelizmente), ao passo que a maleabilidade da música é um recurso que os bons músicos podem se servir e aplicar em suas obras quando quiserem, sem que dependam de nenhum outro fator que exceda a sua composição. Afinal, os nomes possuem mais necessidade que a Música.