Política

Terras raras entregues: venda da Serra Verde aos EUA expõe omissão de Lula e articulação de Caiado

A americana USA Rare Earth anunciou a compra da brasileira Serra Verde, dona da mina Pela Ema, em Goiás, por cerca de US$ 2,8 bilhões. O negócio, ainda sujeito a aprovações regulatórias, dá a uma empresa apoiada por Washington o controle de um dos ativos mais estratégicos de terras raras fora da Ásia. A operação expõe a responsabilidade política de Ronaldo Caiado, que aproximou Goiás dos EUA no setor mineral, e de Lula, cujo governo criticou riscos à soberania, mas não impediu o avanço estrangeiro sobre uma cadeia decisiva para defesa, tecnologia e indústria do futuro.

EPor Eduardo Carvalho
21 de abr. de 20262 Visitas
Terras raras entregues: venda da Serra Verde aos EUA expõe omissão de Lula e articulação de Caiado

A USA Rare Earth anunciou nesta segunda-feira, 20 de abril de 2026, um acordo para adquirir 100% da Serra Verde, empresa dona da mina e da planta de processamento Pela Ema, em Goiás. O negócio será pago com US$ 300 milhões em dinheiro e 126,849 milhões de ações da companhia americana, avaliando a mineradora brasileira em aproximadamente US$ 2,8 bilhões. O fechamento da operação ainda depende de aprovações regulatórias e está previsto para o terceiro trimestre de 2026.

A operação não é apenas mais uma transação privada no setor mineral. A Serra Verde controla um ativo considerado estratégico: a mina Pela Ema, em Goiás, apontada pela própria USA Rare Earth como o único produtor em escala fora da Ásia capaz de fornecer os quatro principais elementos magnéticos de terras raras. Esses minerais — como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio — são usados em ímãs permanentes empregados em defesa, semicondutores, carros elétricos, turbinas eólicas, drones e tecnologias de alta complexidade.

O dado mais grave é que a compra vem acompanhada de um contrato de fornecimento de 15 anos para 100% da produção inicial desses elementos magnéticos, com participação de uma estrutura capitalizada por agências do governo dos Estados Unidos e investidores privados. Na prática, o Brasil entra com o subsolo, a mina, a matéria-prima e o impacto territorial; os Estados Unidos avançam sobre o controle estratégico da cadeia, do financiamento e do destino industrial dessa produção.

O caso escancara um velho vício nacional: o país descobre uma riqueza decisiva para o futuro, mas chega atrasado à própria riqueza. Em vez de organizar uma política nacional soberana para transformar terras raras em indústria, tecnologia, pesquisa, empregos qualificados e poder geopolítico, o Brasil assiste a um ativo estratégico ser incorporado por uma empresa estrangeira com apoio explícito de Washington.

A responsabilidade política recai sobre dois polos. De um lado, Ronaldo Caiado, governador de Goiás, que assinou em março um memorando de entendimento com os Estados Unidos para ampliar parcerias em minerais críticos, oferecendo previsibilidade regulatória, incentivos fiscais e licenciamento ambiental mais ágil como atrativos para investidores. O acordo previa cooperação em mapeamento mineral, ambiente regulatório, pesquisa, tecnologia e agregação de valor em território goiano.

De outro lado, Lula e o governo federal, que reagiram com discursos, cautela diplomática e divisão interna, mas sem uma resposta concreta capaz de impedir que o controle econômico do ativo avançasse para fora do país. A CNN informou em março que o governo Lula descartou judicializar o acordo entre Goiás e os Estados Unidos, apesar de fontes das áreas jurídica e internacional avaliarem haver indícios de inconstitucionalidade. A estratégia escolhida foi manter diálogo com a Casa Branca.

O resultado dessa combinação é desastroso: Caiado abriu a porta política, Lula não fechou a porteira institucional. Um agiu como promotor estadual de interesses estrangeiros em um setor estratégico; o outro, que deveria coordenar uma política nacional robusta, limitou-se a reclamar, estudar, dividir-se internamente e permitir que o fato consumado avançasse.

O próprio ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, chegou a falar em risco à soberania. Ele criticou tentativas isoladas de estados de tratarem de minerais críticos e lembrou que recursos minerais são bens da União. Também apontou preocupação com dados geológicos estratégicos, já que o memorando com Goiás previa cooperação em mapeamento e compartilhamento de informações, inclusive com possibilidade de exclusividade comercial após apuração conjunta desses dados.

Mas crítica sem poder de ação vira apenas nota de rodapé. Enquanto o governo federal debatia se criava uma estatal, se fortalecia a ANM, se reforçava o Serviço Geológico do Brasil ou se fazia um memorando mais amplo com os próprios Estados Unidos, o capital estrangeiro se movimentou com velocidade. A própria CNN apontou que havia divisão dentro do governo sobre a criação de uma estrutura estatal para controlar terras raras, com a área técnica preferindo fortalecer instituições já existentes e elaborar uma política robusta para minerais críticos.

A compra da Serra Verde revela, portanto, uma dupla falha. Caiado transformou Goiás em plataforma de aproximação direta com Washington. Lula, que discursivamente se apresenta como defensor da soberania nacional, não construiu a tempo uma política de Estado para impedir que o Brasil continuasse no papel histórico de exportador de riqueza bruta e importador de tecnologia cara.

A ironia é brutal: as terras raras são chamadas de “minerais críticos” justamente porque definem a economia do futuro. Quem controla esses insumos controla cadeias de defesa, inteligência artificial, semicondutores, energia limpa, robótica, veículos elétricos e equipamentos militares. Não se trata de nacionalismo abstrato. Trata-se de poder concreto.

A USA Rare Earth não esconde o objetivo. Em seu comunicado oficial, a empresa afirma que a aquisição da Serra Verde é um passo “transformacional” para construir uma plataforma integrada de terras raras, óxidos, metais e ímãs. A companhia também destaca que a operação combinada atuará da mineração à fabricação de ímãs, com presença nos Estados Unidos, Reino Unido, França e Brasil.

Ou seja: enquanto o Brasil fornece a mina, a empresa americana organiza a cadeia. Enquanto o Brasil debate soberania em nota oficial, Washington financia, compra, integra e garante fornecimento. Enquanto Brasília e Goiânia trocam justificativas, a geopolítica real se impõe.

Não basta dizer que a transação é legal, privada ou sujeita a aprovação regulatória. O problema maior é político e estratégico. Uma nação séria não trata terras raras como se fossem soja, minério bruto ou commodity qualquer. Um país que possui ativos desse tipo precisa exigir contrapartidas industriais pesadas: processamento local, domínio tecnológico, transferência real de conhecimento, fabricação de componentes, formação de mão de obra especializada e participação nacional decisiva na cadeia de valor.

Nada disso aparece como garantia central no desenho que agora se consolida. O que aparece é um Brasil novamente encaixado na lógica periférica: extrair aqui, decidir fora; minerar aqui, industrializar fora; assumir o impacto aqui, capturar o salto tecnológico fora.

Caiado deve ser cobrado por ter transformado um tema nacional em vitrine política estadual. Lula deve ser cobrado por ter permitido que a suposta defesa da soberania ficasse no plano da retórica, sem uma política efetiva, coordenada e tempestiva. No fim, os dois lados se completaram no erro: o governador abriu caminho para a aproximação americana; o presidente não apresentou uma barreira nacional consistente.

A venda da Serra Verde à USA Rare Earth não é apenas uma notícia econômica. É um retrato do entreguismo brasileiro em versão século XXI: não mais apenas navios levando minério bruto, mas contratos sofisticados, financiamento estrangeiro, memorandos diplomáticos, pisos de preço, offtakes de longo prazo e integração vertical comandada de fora.

O Brasil acaba de ver um pedaço decisivo do futuro tecnológico mundial escapar de suas mãos. E o mais grave é que isso não aconteceu na calada da noite. Aconteceu à luz do dia, com assinatura, comunicado, aplauso de mercado e omissão política.