Um diagnóstico do fracasso da Seleção Brasileira em mais uma Copa do Mundo — e também das seleções da Alemanha e da Itália
Alemanha, Itália e Brasil, as três maiores seleções da história, atravessam crises que vão muito além da falta de resultados. Os alemães abandonaram características tradicionais, como verticalidade, força e disciplina, para imitar modelos de posse; os italianos sofrem com decadência demográfica, econômica e estrutural; e o Brasil, embora continue formando grandes talentos, passou a moldá-los segundo as exigências do mercado europeu, multiplicando pontas e reduzindo a produção de meias, laterais e centroavantes. Sem identidade própria e submetidas a modelos importados ou interesses financeiros, essas seleções já não sabem que futebol desejam praticar.

As três maiores camisas da história, as seleções mais pesadas e tradicionais do planeta — Alemanha, Itália e Brasil —, atravessam uma decadência profunda. A trajetória do futebol de excelência se confunde com a dessas três nações; hoje, porém, as três estão no fundo do poço.
A Alemanha deixou de produzir jogadores de alto gabarito. Não me refiro a gênios do drible ou do improviso, perfil que ela jamais priorizou. Refiro-me àquele tipo de atleta que personificava a organização coletiva, a verticalidade, a força física, a disciplina tática e uma obsessão quase industrial pelo resultado. A partir de 2002, e com muito mais intensidade depois da febre do “guardiolismo”, a Alemanha renunciou a essas características para imitar o tiki-taka espanhol, passando a formar jogadores segundo esse modelo. Deu certo em 2014? É discutível. A campanha teve atuações paupérrimas contra Argélia e Argentina; o 7 a 1 sobre o Brasil criou a ilusão de um time extraordinário, quando na verdade a seleção alemã venceu a Copa praticando um futebolzinho de meia-tigela. O preço dessa escolha está estampado nos três fracassos humilhantes acumulados nas três Copas seguintes.
A Itália exige outra chave de explicação. O principal problema transcende o futebol: o país tem a menor taxa de natalidade da Europa, com apenas 1,18 filho por família. Simplesmente não nascem crianças em número suficiente, e a Itália não é um destino imigratório tão atraente quanto a França ou a Espanha. Sem crianças, não há renovação nas categorias de base; os olheiros não encontram jovens talentos, e a seleção frequentemente recorre à naturalização de estrangeiros para preencher o elenco. Some-se a isso uma liga nacional tecnicamente paupérrima: o Campeonato Italiano exibe jogos muito semelhantes aos do Brasileirão, com gramados que também se parecem, e se tornou uma competição de atletas envelhecidos. Seu melhor clube na atualidade, a Inter de Milão, não figura nem entre os dez melhores times do mundo. Além disso, a Itália parece incapaz de reencontrar seu estilo. Em alguns momentos flertou com a ditadura guardiolista, e o flerte fracassou redondamente.
O Brasil continua a produzir excelentes jogadores, mas com falhas dantescas na formação. A primeira delas decorre da necessidade desesperada de vender atletas para equilibrar as finanças dos clubes quebrados. O mercado do futebol já diagnosticou que o jogador brasileiro negociado com a Europa por cifras altíssimas — entre 35 e 40 milhões de euros — é, na maioria esmagadora, um ponta. Esse diagnóstico financeiro gerou uma espécie de obrigação, desde o sub-12: qualquer talento diferenciado é deslocado para as pontas pelos treinadores da base. Dou o exemplo de Estêvão, revelado pelo Palmeiras, mas com passagem pelas categorias inferiores do Cruzeiro. No clube mineiro (do qual sou torcedor e cuja base acompanhei de perto na época), ele era meia, jogava por dentro, atuava como principal armador do juvenil celeste. Com a crise de corrupção e má gestão que assolou o Cruzeiro sob Itair Machado, o garoto foi parar sem custos no Palmeiras, e a base palmeirense — gerida como mero conjunto de ativos financeiros — deslocou um talentosíssimo meio-campista para a ponta direita. Assim Estêvão chegou ao profissional. A base pensada como carteira de investimentos é uma das grandes responsáveis pelos graves problemas de formação do futebol brasileiro. Não me recordo de um meia brasileiro vendido por 30 milhões de euros, como aconteceu com Ryan, Estêvão, Vinicius Junior e outros pontas. Até a escassez de centroavantes obedece à mesma lógica: surge um bom camisa 9 na base? Desloca-se para a ponta. Laterais, que no Brasil sempre se caracterizaram por serem ofensivos antes de defensivos (de Nilton Santos a Roberto Carlos), também são convertidos em pontas — afinal, dificilmente se consegue 30 milhões de euros por um lateral. Sinceramente, não sei como resolver esse problema. Seria quase como precisar reinventar a lógica econômica do futebol, ou seja, algo que jamais acontecerá.
Outro problema grave é a descaracterização do futebol brasileiro. Não estamos confusos de agora, mas desde a Copa de 1982. Quando perdemos aquele Mundial, passamos a questionar profundamente a nossa identidade. Tínhamos uma geração talentosíssima, muito parecida com a de 1970: Sócrates lembrava Rivelino, Falcão lembrava Gerson, Zico de certa forma lembrava Tostão — e fomos eliminados jogando como um bando em campo. (Se puderem rever as partidas daquela seleção, perceberão que era de fato um bando, mas que encantava pelo futebol kamikaze.) Depois, vencemos em 1994 com um time muito mais próximo de outras escolas, sobretudo da alemã campeã em 1990: disciplina tática férrea, organização defensiva exemplar e força física. A partir dali, acreditou-se que esse era o caminho, e veio a eterna escola gaúcha — Parreira, um breve interregno com Zagallo, depois Felipão (campeão mundial muito por contar com quatro jogadores de nível estratosférico: Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e Roberto Carlos), novamente Parreira, Dunga, outra vez Felipão, outra vez Dunga e, por fim, Tite. Com o fracasso do burocrático Tite em duas Copas, a CBF decretou: não temos identidade nenhuma, vamos buscar um técnico completamente distinto do estilo que consagrou o Brasil nos três primeiros títulos (as Copas em que tínhamos uma identidade clara, abandonada depois de 1982). Mira então em um experiente treinador italiano, herdeiro da velha escola do catenaccio, cuja primeira aplicação em Copas remonta ao escrete de Vittorio Pozzo em 1934 e 1938, e que foi se adaptando e se aperfeiçoando ao longo das décadas. Todos os grandes técnicos italianos foram educados dentro dessa tradição — Enzo Bearzot em 1982, Arrigo Sacchi em 1994 (que tinha Ancelotti como auxiliar) e, claro, Marcello Lippi em 2006. Carlo Ancelotti pertence a essa mesma escola, que talvez tenha deixado de evoluir desde o título mundial de 2006, incapaz de se adaptar à ditadura guardiolista a não ser com lampejos de sucesso, como os obtidos por Ancelotti e Antonio Conte. No caso de Ancelotti, contou-se ainda com a fortuna de dirigir verdadeiros esquadrões: o absurdo Milan de Maldini, Nesta, Gattuso, Ambrosini, Pirlo, Seedorf e Kaká; e o Real Madrid de Modric, Kroos, Benzema e Cristiano Ronaldo (no título da Champions de 2013-14). O resultado prático é que hoje caímos diante da Noruega jogando na retranca — uma retranca estranhíssima à nossa tradição. Jamais havíamos disputado uma Copa do Mundo assim e jamais havíamos fracassado jogando dessa maneira. E, diga-se de passagem, trata-se de um catenaccio italiano muito mal executado: atacantes recuados como meias, marcadores excessivamente lentos (Casemiro, em especial) e uma incapacidade flagrante de explorar contra-ataques.
Essa derrota escancara os dois maiores problemas do futebol brasileiro: o abandono (ou o esquecimento) de uma identidade e o caráter mercantil que passou a ditar a formação dos jogadores. A pergunta que move nossos dirigentes esportivos é: “Que tipo de jogador tem mais chance de ser vendido por 30 a 50 milhões de euros?” A resposta: os pontas. Por isso, não formamos mais meias nem laterais de ofício. E só não fazem o mesmo com os zagueiros — que, felizmente, ainda formamos com excelência — porque, afinal, é impossível deslocar um Gabriel Magalhães para a ponta.