As ações militares de Israel e EUA e o projeto da "Grande Israel"
Durante décadas, aqueles que alertavam sobre a existência de um projeto coordenado para expandir as fronteiras de Israel até os limites bíblicos do "Nilo ao Eufrates" foram tachados de conspiratórios, radicais ou simplesmente paranoicos. Dizia-se que o sionismo revisionista era uma página virada na história e que Israel, como Estado moderno, agia movido por segurança, não por profecias.

A teoria do "Grande Israel" não é um documento oficial assinado por um governo, mas sim uma crença fundamentada em interpretações de textos bíblicos (Gênesis 15:18) e na ideologia do movimento sionista revisionista, liderado historicamente por Zeev Jabotinsky e, mais tarde, pelo partido Likud (de Netanyahu).
De acordo com essa visão, as fronteiras de Israel deveriam se estender do "Rio Nilo ao Eufrates" , abrangendo total ou parcialmente os territórios de: Palestina Histórica (Cisjordânia/Judeia e Samaria e Gaza), Já ocupada e controlada; Líbano (especialmente o Sul), Até o rio Litani; Síria (as Colinas de Golã), Já anexadas por Israel.; Jordânia; Península do Sinai (Egito): Conquistada em 1967, mas devolvida no tratado de paz de 1979; Partes do Iraque e Arábia Saudita.
Hoje, diante dos destroços fumegantes de uma escola primária no Irã e assistindo tanques israelenses avançarem sobre o sul do Líbano sem encontrar resistência internacional, é impossível negar que Israel executa o plano da Grande Israel. Mais uma vez, estamos diante da máxima: a "teoria da conspiração" de ontem é a política de Estado de hoje.
O que vimos na última semana não foi uma resposta proporcional a ameaças. Não foi uma ação defensiva. Foi a execução cirúrgica de um plano: a destruição do arco xiita para viabilizar, enfim, o sonho da Grande Israel.
O Irã não está no mapa bíblico tradicional da Grande Israel, mas sua desestabilização é a chave para destrancar as portas do Levante. Sem o Irã, o Hezbollah perde seu patrocinador; sem o Hezbollah, o Líbano se torna um terreno fértil para anexações disfarçadas de "zonas de segurança"; sem a Síria (já fragmentada), a porta está aberta para a expansão territorial até o rio Eufrates, no coração do Iraque.
Não é coincidência que, enquanto os mísseis caíam em Teerã, as tropas israelenses avançavam 1 km para dentro do Líbano. A coordenação entre Washington e Tel Aviv não é tática; é estratégica.
O avanço israelense no sul do Líbano não para na fronteira imediata. As Forças de Defesa de Israel já anunciaram a intenção de ocupar "posições estratégicas" e criar uma "zona tampão". Traduzindo do jargão militar: eles pretendem avançar até o rio Litani.
Para aqueles que compram todo o discurso sionista, de cabo a rabo, isso pode parecer uma medida de segurança para afastar o Hezbollah. Para quem conhece minimamente a história, é a repetição do roteiro de 1982, quando Ariel Sharon tentou impor uma nova ordem no Líbano. A diferença é que, desta vez, o contexto é mais favorável: o exército libanês recuou, o governo de Beirute declarou o Hezbollah "ilegal", e a comunidade internacional, liderada por uma administração americana que acaba de matar centenas de crianças iranianas, não pretenderá intervir.
O Litani sempre foi o sonho molhado dos geógrafos da Grande Israel. Com sua água e sua posição estratégica, ele representa a fronteira natural de um país que nunca se contentou com as linhas de 1948, 1967 ou qualquer outra.
O ataque à Escola Shajara Tayyiba, que matou 165 meninas, não foi um "erro". Em nenhum discurso oficial, em nenhum pedido de desculpas, houve qualquer tentativa de justificar aquelas mortes como um dano colateral. E por que haveria?
Porque, dentro da lógica implacável do projeto expansionista sionista, a população civil é um estorvo. A "Grande Israel" não pode ser um Estado judeu demograficamente viável se milhões de árabes (sejam eles iranianos, libaneses, sírios ou palestinos) permanecerem em seu território pretendido.
A política de terror, a destruição de infraestrutura civil, a fome em Gaza e os bombardeios em escolas não são falhas de inteligência; são ferramentas de engenharia demográfica. O objetivo é tornar a vida impossível para que a população migre, voluntariamente ou não, liberando território para a expansão dos assentamentos.
A imagem de Melania Trump presidindo uma sessão do Conselho de Segurança sobre "crianças em conflitos" enquanto seu marido ordenava o assassinato de crianças no Irã é a metáfora perfeita do nosso tempo.
Os Estados Unidos não são apenas um aliado de Israel; eles são o escudo que permite que este projeto avance sem consequências. Cada veto no Conselho de Segurança, cada pacote de ajuda militar, cada declaração de "direito de autodefesa" é uma assinatura no mapa da Grande Israel.
A Rússia protesta, mas está atolada na Ucrânia. A Europa condena, mas compra títulos israelenses. O mundo árabe? Dividido entre aqueles que normalizaram relações (Abraão Accords) e aqueles que temem a desestabilização interna.
O resultado é um vácuo de poder moral e político que está sendo preenchido por tanques.
Dizem que as profecias bíblicas não podem ser tomadas como plataforma política. Mas o que fazer quando os políticos agem exatamente como se estivessem cumprindo uma profecia?
As linhas no mapa estão sendo redesenhadas. O que antes era ocupação temporária na Cisjordânia, hoje é anexação silenciosa. O que era zona de segurança no Líbano, hoje é avanço territorial declarado. O que era influência indireta na Síria, hoje é controle efetivo das Colinas de Golã e arredores. O que era inimigo distante no Irã, hoje é um Estado em frangalhos, pronto para ser dividido em zonas de influência.
A "Grande Israel" não será declarada em nenhum discurso oficial. Não haverá um mapa sendo desenrolado na ONU. Ela será construída passo a passo, bomba a bomba, escola destruída por escola destruída. Até que um dia, acordaremos e perceberemos que as fronteiras que imaginávamos no papel se tornaram trincheiras na realidade.
E, nesse dia, os arquitetos desse plano poderão finalmente admitir: não era uma teoria da conspiração. Era apenas um projeto que ninguém teve coragem de parar.