Opinião

Laureano Gómez: o católico tradicionalista que enfrentou a democracia liberal na Colômbia

Laureano Gómez foi uma das figuras mais importantes do conservadorismo católico hispano-americano no século XX. Ex-presidente da Colômbia, intelectual tradicionalista, crítico da democracia liberal e defensor da ordem cristã, Gómez viu na política uma missão civilizacional: preservar a fé católica, a hispanidade, a autoridade e a continuidade histórica contra o liberalismo, o comunismo e a dissolução moral da modernidade.

EPor Eduardo Carvalho
5 de mai. de 20267 Visitas
Laureano Gómez: o católico tradicionalista que enfrentou a democracia liberal na Colômbia

Laureano Eleuterio Gómez Castro foi uma das figuras mais influentes do pensamento tradicionalista hispano-católico no século XX, embora seja esquecido quando comparado a nomes como Gabriel García Moreno, Donoso Cortés, José Antonio Primo de Rivera, entre outros. Engenheiro, jornalista, orador, chefe histórico do Partido Conservador Colombiano e presidente da Colômbia eleito em 1950, Gómez pertenceu à linhagem dos políticos-intelectuais que viam a política não apenas como disputa administrativa, mas como combate cultural, religioso e civilizacional. Sua ação se apoiava em teorias cristãs de matriz tomista e agostiniana, revitalizadas pelo neotomismo católico do fim do século XIX.

O núcleo do pensamento de Laureano Gómez era a convicção de que a ordem política não poderia ser neutra diante da verdade religiosa. Para ele, o Estado moderno, ao se separar da tradição católica, não se tornava apenas “pluralista”; tornava-se vulnerável ao relativismo, ao materialismo, ao comunismo e à dissolução moral. Nesse sentido, Gómez representou uma vertente do conservadorismo que não aceitava reduzir a política à gestão econômica ou à aritmética eleitoral. A política, em sua concepção, deveria defender uma herança civilizacional: a cristandade, a família, a autoridade, a continuidade histórica e a identidade hispânica.

Sua crítica à democracia liberal partia justamente daí. Gómez via o sufrágio universal e o parlamentarismo liberal como mecanismos que transformavam a vida nacional em permanente agitação partidária. Em seu discurso de instalação do Congresso de 1951, ele afirmou que o sufrágio universal havia permitido que a política “invadisse” todo o corpo da sociedade, substituindo o raciocínio pela simples contagem numérica da “metade mais um”. Para ele, a decisão da maioria, quando tomada como dogma absoluto, nivelava por baixo e destruía a responsabilidade pessoal.

Isso não significa que Gómez fosse simplesmente contrário a qualquer forma de eleição. Sua posição era mais próxima de uma crítica orgânica à democracia liberal: aceitava o voto em determinadas circunstâncias, como para escolher o chefe de Estado ou parte do Legislativo, mas rejeitava a ideia de que todos os assuntos públicos devessem ser resolvidos pela vontade numérica da maioria. Em vez da democracia liberal individualista, sua inclinação era por uma representação mais hierárquica, corporativa e socialmente ordenada, com espaço para instituições intermediárias, autoridades tradicionais e corpos representativos não reduzidos ao voto de massa.

Essa visão apareceu de forma concreta em seu projeto de reforma constitucional. O estudo de Diego Nicolás Pardo Motta sobre a reforma conservadora de 1953 mostra que o projeto laureanista tendia a fortalecer fortemente a Presidência, enfraquecer o Legislativo e o Judiciário, restaurar elementos da Constituição colombiana de 1886 e inserir componentes confessionais e corporativos no Estado. O mesmo estudo descreve esse modelo como um Estado comunitarista, autoritário e profundamente confessional, com influência católica e inspiração em formas de representação corporativa.

O catolicismo de Gómez era o fundamento de sua teoria política. A sociedade, para ele, não poderia sobreviver se organizada contra sua própria tradição espiritual. Sua formação no Colégio de San Bartolomé, sob influência jesuítica, e sua adesão ao pensamento católico tradicional deram a seu conservadorismo uma feição doutrinária. O Estado deveria reconhecer a função pública da religião católica, proteger a educação católica e preservar a moral social. Essa é a razão pela qual sua crítica ao liberalismo não era meramente econômica ou institucional: era, antes de tudo, uma crítica teológica e civilizacional.

Outro eixo central de seu pensamento era a hispanidade. Gómez via a Colômbia e a América Hispânica como frutos de uma tradição moldada pela Espanha, pela língua, pelo catolicismo e por uma determinada concepção de ordem. A herança espanhola atravessava sua interpretação da história colombiana e americana, funcionando como chave para compreender sua defesa da tradição, da conquista, da colônia e da continuidade cultural hispânica.

Essa hispanofilia também ajuda a explicar sua proximidade com o nacional-catolicismo espanhol. Gómez admirava a reação conservadora e católica que se expressou na Espanha de Franco, embora sua relação com os fascismos europeus seja objeto de debate histórico. A Universidade Sergio Arboleda, ao apresentar a reedição de El cuadrilátero, grande obra de Gómez, afirma que o livro é fundamental para compreender sua geração e sua visão da política como defesa do legado civilizatório da cristandade. Ao mesmo tempo, registra que Gómez buscou se distanciar de experiências totalitárias tanto de esquerda quanto de direita.

A obra, publicada originalmente em 1935, é uma das portas de entrada mais importantes para entender essa ambiguidade. Nela, Gómez examinou quatro figuras decisivas do século XX: Mussolini, Hitler, Stalin e Gandhi. A escolha dos personagens mostra sua preocupação com os grandes modelos de poder da modernidade: o fascismo italiano, o nacional-socialismo alemão, o comunismo soviético e a resistência espiritual-política de Gandhi. A obra não pode ser lida apenas como adesão a um desses modelos, nem como crítica absoluta; trata-se de um livro que busca se aprofundar nessas figuras, compreender como chegaram até ali e como cada regime lidou, a seu modo, com os pressupostos da modernidade.

Gómez era um grande simpatizante do franquismo e crítico do fascismo italiano original e do nazismo, que ele via como ideologias ateias incompatíveis com seus princípios católicos.

O pensamento laureanista também possuía um forte componente anticomunista. Para Gómez, o comunismo não era apenas uma doutrina econômica adversária, mas uma ameaça espiritual e civilizacional. Ele o associava ao ateísmo, ao materialismo e à destruição da ordem cristã. Sua oposição ao liberalismo e ao comunismo vinha de uma mesma matriz: ambos, em sua leitura, seriam expressões modernas de ruptura com a ordem tradicional — o liberalismo pela via do individualismo secularizante; o comunismo pela via revolucionária, materialista e igualitária.

No plano interno colombiano, sua atuação foi marcada por enorme capacidade de mobilização, mas também por forte polarização.

Gómez foi um tribuno combativo, conhecido pela firmeza retórica contra seus adversários e pela capacidade de conduzir o Partido Conservador em meio à crise do liberalismo colombiano. Assumiu a Presidência em 1950, depois da retirada liberal da disputa eleitoral; em 1951, afastou-se por problemas de saúde, deixando o poder nas mãos de Roberto Urdaneta Arbeláez; e, em 1953, foi impedido de retornar ao cargo pelo golpe do general Gustavo Rojas Pinilla.

Seu governo se insere no período traumático conhecido como La Violencia, conflito político entre liberais e conservadores que deixou marcas profundas na história colombiana.

Mas a trajetória de Gómez também teve um desfecho paradoxal, que mostra sua grandeza ao compreender o caos colombiano e buscar restaurar uma mínima ordem política no país. O mesmo homem que passou décadas combatendo os liberais foi um dos articuladores, ao lado de Alberto Lleras Camargo, da Declaração de Benidorm e, depois, do Pacto de Sitges, que abriram caminho para a Frente Nacional — acordo entre conservadores e liberais destinado a superar a guerra civil partidária e reorganizar a vida política colombiana. Gómez e Lleras firmaram esses acordos entre 1956 e 1957, prevendo paridade entre os partidos tradicionais e alternância no poder.

Sua produção intelectual foi vasta. Além de El cuadrilátero, escreveu textos históricos, ensaios políticos, críticas literárias e artigos de combate. Entre seus escritos estão Interrogantes sobre el progreso de Colombia, El mito de Santander, Yerros constitucionales, La decadencia de España en el siglo XVIII e Un centenario de la hispanidad. Essa obra mostra um autor preocupado com a identidade nacional, a decadência das elites, a tradição hispânica, a religião, o Estado e a crise da modernidade.

O lugar de Laureano Gómez na história, portanto, não é o de um simples presidente conservador. Ele foi um ideólogo da ordem, um crítico radical da democracia liberal, um católico político, um hispanista e um adversário feroz da secularização.

Gómez representa uma corrente de pensamento que via a América Hispânica como herdeira de uma civilização católica, hierárquica e comunitária. Foi um grande defensor da tradição contra a dissolução moderna.

Infelizmente, quase toda a sua obra não possui tradução em língua portuguesa. Entretanto, um dos meus futuros projetos é traduzir as obras de Laureano Gómez para o português e inserir esse grande pensador tradicionalista hispano-católico no debate público brasileiro.