Ou se é católico, ou se é olavista: o esoterismo gnóstico de Olavo de Carvalho em O Jardim das Aflições
Ao tratar a crise espiritual do Ocidente como fruto da ruptura entre “Pequenos Mistérios” e “Grandes Mistérios”, Olavo de Carvalho revela, em O Jardim das Aflições, uma concepção nitidamente gnóstica, esotérica e iniciática, incompatível com a fé católica. Ao apresentar a maçonaria como via legítima de iniciação subordinada a uma tradição superior, Olavo desloca a salvação do terreno da Revelação pública da Igreja para uma lógica de ascensão espiritual por graus. O resultado é claro: sob linguagem cristã, o olavismo abriga uma estrutura de pensamento estranha ao catolicismo. Ou se é católico, ou se é olavista.

Olavo de Carvalho, na sua Magnum Opus, O Jardim das Aflições, defende que a crise espiritual do Ocidente é resultado da ruptura entre os Pequenos Mistérios e os Grandes Mistérios. No trecho sobre Goethe e Wilhelm Meister, Olavo define os Pequenos Mistérios como a ordem histórico-cósmica e os Grandes Mistérios como o plano em que essa ordem é transcendida pelo conhecimento do infinito e do divino. É nesse ponto que ele enquadra a maçonaria como via de Pequenos Mistérios, dizendo que ela só faria sentido quando subordinada a uma tradição espiritual maior, orientada ao conhecimento de Deus.
Eis o caráter gnóstico, esotérico/iniciativo do velho da Virgínia.
Gnóstico porque a salvação deixa de aparecer primariamente como adesão humilde à Revelação pública da Igreja e passa a ser lida como ascensão por graus de consciência, saindo de um plano inferior — histórico, cósmico, civilizacional — para um plano superior de conhecimento do divino.
Esotérico porque diz que a maçonaria é, em essência, uma iniciação de “Pequenos Mistérios”, e que o drama moderno nasce quando essa iniciação se absolutiza e bloqueia o acesso aos “Grandes Mistérios”. Ou seja: o problema é formulado em termos de graus de iniciação e de sua ordenação correta ou incorreta.
Ou se é católico, ou se é olavista; os dois não dão.
Eis os trechos:
"No romance de Goethe, à medida que Wilhelm supera a revolta juvenil para integrar-se no mundo real como cidadão educado e prestativo, a sociedade se revela como um microcosmo à imagem do universo dirigido por potências benévolas. A extraordinária beleza desta imagem da ordem universal não deve porém fazernos esquecer que nela se trata apenas daquilo que se chama uma iniciação de “Pequenos Mistérios”, isto é, a revelação da ordem histórico-cósmica; e que tão logo os Pequenos Mistérios se fazem passar por uma finalidade em si mesmos, se tornam um entrave ao desenvolvimento espiritual do homem, barrando-lhe o acesso aos “Grandes Mistérios” onde a ordem cósmica é transcendida pelo conhecimento do infinito e do divino. Ora, a maçonaria, como todas as demais vias espirituais originadas em iniciações de ofícios, é em essência uma iniciação de Pequenos Mistérios, e só conserva seu sentido quando integrada no corpo de uma tradição espiritual maior, capaz de absorver o conhecimento dos mistérios cósmicos como uma etapa transitória no caminho para o conhecimento de Deus. E o que caracteriza de maneira mais enfática o período aqui mencionado é precisamente a ruptura entre os Pequenos e os Grandes Mistérios, a tentativa de fazer da iniciação histórico-cósmica a etapa terminal do sentido da vida, de barrar ao homem o acesso ao infinito e aprisionálo na dimensão terrestre. A trajetória de Meister imita a do próprio Goethe — alto dignitário da Maçonaria —, desde a revolta romântica de uma juventude de poète maudit até a esplêndida maturidade que encontra no serviço ao Estado, à sociedade, ao progresso, a realização do sentido da existência terrestre, tal como o primeiro Fausto que conclui pela apologia da indústria e da técnica que abrirão ao homem as portas de uma nova civilização. Mas, na velhice, Goethe conscientiza-se agudamente das limitações da perspectiva histórico-cósmica. Na continuação de Wilhelm Meister e sobretudo no segundo volume do Fausto, ele procura integrar essa perspectiva no quadro maior de uma ascensão puramente espiritual. Ressurgem então os temas cristãos, e o arrependimento aparece como a via que abre as portas da salvação; a alma resgatada, que fora prometéica e dominadora ante o mundo, torna-se, inversa e complementarmente, passiva e “feminina” ante Deus, e, transcendendo a esfera histórico-cósmica, se eleva aos céus. O ingresso final no reino dos Grandes Mistérios coroa a trajetória interior do maior dos poetas modernos com a descoberta de uma Lei superior à ordem cósmica, bem como de uma humildade mais profunda e salvadora que a do mero servidor da História. [...]
De acordo com Guénon, a civilização do Ocidente, se não conseguisse reunificar Maçonaria e Cristianismo — Pequenos e Grandes Mistérios —, restaurando o corpo cindido da espiritualidade tradicional, não teria alternativa senão cair na barbárie ou islamizar-se. Como ambas estas últimas tendências não cessaram de se fortalecer nas décadas que transcorreram desde o diagnóstico guénoniano — sendo as marcas da barbárie ascendente tão pronunciadas quanto a expansão islâmica nos países europeus e mesmo nos Estados Unidos —, não se sabe aí o que é mais notável: a exatidão da profecia do grande asceta francês ou sua antecipação na alma do poeta alemão. [...]
Portanto, que fique claro: se de um lado rejeito categoricamente toda tentativa de imputar à Maçonaria a autoria dos males modernos, de outro lado me parece um fato que a ruptura entre Maçonaria e tradição católica está na raiz desses males – como o pretendia aliás o próprio René Guénon –, não exclusivamente, decerto, mas ao menos significativamente."
Outro trecho interessante do O Jardim das Aflições para conhecermos a verdadeira face do "católico" Olavo de Carvalho.
Quem não se lembra quando Olavo disse que o catolicismo não é uma doutrina. Bem, vejamos o porquê de Olavo dizer isso:
"O cristianismo, de fato, não quis destruir o Império, mas não podia submeter-se a ele; nem quis restaurá-lo, mas não podia subsistir e expandir-se senão sob a proteção dele. René Guénon, que sempre deve ser ouvido nessas matérias, explica o fenômeno dizendo que o cristianismo não tinha, originariamente, o espírito de uma lei religiosa, no sentido judaico ou islâmico de uma regra para a ordenação do mundo, mas o de um esoterismo, de um caminho puramente interior: “Meu reino não é deste mundo.” A exoterização do cristianismo, sua transformação numa lei religiosa para o conjunto da sociedade, teria sido causada por circunstâncias externas: a decadência da religião romana e do judaísmo deixavam o mundo greco-romano praticamente sem qualquer lei religiosa — e o cristianismo, mesmo a contragosto, mesmo ao preço de trair em parte sua vocação interiorizante, teve de preencher providencialmente uma lacuna que ameaçava alargar-se num abismo e engolfar a civilização. O cristianismo salva o mundo antigo, absorvendo-o num novo quadro, mas, para isso, tem de se deixar absorver nele e transformar-se, mediante adaptações bastante deformantes, numa nova Lei exterior, na religião do Império."