Opinião

Reforma agrária e soberania nacional: a proposta de Aldo Rebelo que irritou comunistas e nacionalistas

Ao afirmar que o Brasil precisa de uma reforma agrária proprietária, com valorização do campo e investimento privado, Aldo Rebelo expôs as contradições de comunistas anti-agrários e de nacionalistas de discurso vazio. A proposta, inspirada no distributivismo e na doutrina social católica, recoloca a questão da terra no centro do debate sobre soberania, desenvolvimento econômico e integração nacional.

EPor Eduardo Carvalho
5 de fev. de 2026101 Visitas
Reforma agrária e soberania nacional: a proposta de Aldo Rebelo que irritou comunistas e nacionalistas

A recente entrevista de Aldo Rebelo ao jornalista marxista Breno Altman teve um efeito curioso e revelador: irritou profundamente dois campos que, embora se odeiem na superfície, se parecem mais do que admitem — os nacionalistas de retórica vazia e os comunistas anti-agrários e visceralmente hostis à propriedade privada. Ao afirmar, sem rodeios, que o Brasil precisa de uma profunda reforma agrária, de valorização estratégica do campo e de investimento privado como motor do desenvolvimento, Aldo expôs a fragilidade teórica de ambos.

“Ah, mas o Aldo é agrarista e reacionário”, disseram, em uníssono, o webcomunista ressentido e o nacionalismo mais burraldo, incapazes de compreender que o desenvolvimento brasileiro não passa por uma única via. A ideia de que basta industrializar — como se a indústria pudesse florescer sobre um território desorganizado, uma estrutura fundiária arcaica e uma população desenraizada — é uma das ilusões mais persistentes e mais danosas do debate nacionalista.

O desenvolvimento do Brasil exige, sim, política industrial. Mas exige igualmente uma política agrária deliberada, ambiciosa e voluptuosa, capaz de criar um Brasil de pequenos proprietários, economicamente ativos, juridicamente seguros e socialmente enraizados. Não há contradição entre indústria e campo; a contradição está em imaginar que um país continental pode se industrializar plenamente mantendo uma base agrária concentrada, improdutiva e socialmente precária.

É nesse ponto que a fala de Aldo Rebelo toca numa ferida histórica. Ao defender algo semelhante a uma “Jornada para o Oeste brasileira”, ele não está evocando um romantismo ruralista nem uma expansão predatória, mas um projeto de Estado, racional e soberano, de ocupação produtiva do território. Assim como nos Estados Unidos do Homestead Act, ou no Japão do pós-guerra, trata-se de usar o Estado para criar proprietários, não para administrar coletivos nem para eternizar oligarquias fundiárias.

Esse projeto, longe de ser exótico, é um misto claro de distributivismo chestertoniano com o ideal católico de propriedade. G. K. Chesterton já havia compreendido que o grande mal moderno não é a propriedade privada, mas sua concentração extrema, que transforma a maioria em dependentes permanentes. Quando poucos possuem quase tudo, não há mercado livre, nem cidadania, nem estabilidade política — há servidão disfarçada.

A Doutrina Social da Igreja converge com esse diagnóstico ao afirmar que a propriedade privada é legítima, mas ordenada a uma função social, familiar e comunitária. A terra não é fetiche ideológico nem ativo financeiro abstrato: ela é base material da dignidade humana, do trabalho livre e da continuidade entre gerações. Um país que nega isso — seja em nome do coletivismo, seja em nome do latifúndio — está cavando sua própria desintegração.

A irritação dos comunistas anti-agrários é compreensível: uma reforma agrária que cria pequenos proprietários destrói a base social da revolução permanente, pois produz cidadãos com autonomia material, interesses concretos e vínculos reais com a ordem. Já o incômodo dos nacionalistas de cartilha revela outra falência: a incapacidade de entender que não há soberania sem povo proprietário, nem integração territorial sem gente fixada, produzindo e defendendo o chão que pisa.

A proposta de Aldo também não é anti-mercado, nem estatizante. Ao contrário: ela entende que o investimento privado só floresce onde há estrutura social sólida, mercado interno dinâmico e segurança jurídica. O papel do Estado, aqui, não é substituir o produtor, mas ordenar a estrutura da posse, garantir infraestrutura, crédito e títulos, e impedir a reconcentração predatória da terra.

Em última instância, o que está em jogo é um projeto nacional completo. Um Brasil de pequenos proprietários rurais não é um retorno ao passado, mas um salto civilizacional: mais mercado interno, mais coesão social, mais estabilidade política e mais base real para a industrialização. Reacionário não é quem defende isso. Reacionário é insistir em modelos fracassados, seja o latifúndio colonial, seja a fantasia coletivista que só produz miséria e dependência.

A entrevista irritou porque disse o óbvio que ninguém quer enfrentar: sem reforma agrária proprietária, o Brasil continuará sendo um país pela metade — industrialmente capenga, socialmente fraturado e territorialmente mal integrado.

Entrevista completa: