Réquiem para o Brasil
Entre a memória de uma grande civilização possível e a realidade de um país cultural, político e espiritualmente em ruínas.

É triste constatar, mas o Brasil parece ter chegado ao fundo do poço em praticamente todos os aspectos — e a possibilidade de sair dele, ao menos num futuro previsível, aproxima-se de zero.
Eu amo este país. Foi o amor pelo Brasil que me levou a cursar História e a lecionar sobre sua formação, desde o Império Português até a Era Vargas. Esse amor, contudo, não permaneceu restrito à vida acadêmica ou às salas de aula. Durante anos, estive nas ruas, participei das mobilizações pelo impeachment de Dilma Rousseff e militei ativamente na direita brasileira. Fui também aluno do Curso Online de Filosofia, de Olavo de Carvalho, em uma época na qual ainda enxergava naquele movimento — apesar de suas contradições e limitações — algum resquício de possibilidade de restauração nacional. Parecia existir ali, por mais incipiente que fosse, a esperança de reconstruir cultural, moral e politicamente o Brasil. Hoje, porém, essa possibilidade já não existe: o movimento se desfez, degenerou ou foi absorvido pelas mesmas estruturas que dizia combater. Durante muito tempo, repeti como um mantra a ideia de Darcy Ribeiro de que, apesar de todos os males produzidos pela escravidão, por nossas elites abjetas e por tantas outras deformações históricas, o Brasil constituía um projeto civilizacional: uma Nova Roma, formada por um povo de origem tricontinental, etnicamente mestiço e estabelecido sobre um território de dimensões continentais — uma verdadeira Roma tropical.
Toda a história brasileira parecia confirmar essa vocação. Somos herdeiros de um país forjado, em suas origens mais remotas, no mito de Ourique e no espírito desbravador e aventureiro dos portugueses: o espírito de Gil Eanes, ao transpor o Cabo Bojador; de Bartolomeu Dias, ao contornar o Cabo da Boa Esperança; de Pedro Álvares Cabral, comandante da formidável esquadra que aqui aportou; e de Pedro Teixeira, que percorreu e desbravou a imensidão da Bacia Amazônica. Esse espírito, ao se encontrar e se fundir com os povos da terra, deu origem aos mamelucos e aos bandeirantes, que avançaram pelo interior e ampliaram as fronteiras do Brasil muito além dos limites inicialmente estabelecidos pelo Tratado de Tordesilhas.
É também o Brasil catequizado pelo padre Manuel da Nóbrega e por São José de Anchieta; o Brasil dos belíssimos sermões do padre Antônio Vieira, que conduziram a prosa barroca de língua portuguesa ao seu ponto mais elevado e expressaram, diante das necessidades de seu tempo, uma moral genuinamente cristã contra a escravização dos indígenas, os abusos coloniais, a corrupção dos governantes e tantas outras mazelas humanas.
É o Brasil de Machado de Assis e de Guimarães Rosa — talvez o escritor brasileiro que mais profundamente tenha dialogado com a universalidade da tradição literária, de Homero e Dante aos grandes autores russos. É o Brasil de oradores excepcionais, como frei Francisco de Monte Alverne e Joaquim Nabuco; de Antônio de Castro Alves, de longe o maior poeta brasileiro de todos os tempos; e de uma classe política que produziu homens como Bernardo Pereira de Vasconcelos e Gaspar da Silveira Martins. Diante da mediocridade atual, chega a ser estranho imaginar que somos herdeiros da mesma tradição política e intelectual.
É o Brasil que não se deixou subjugar nem esmorecer. O país que reuniu mamelucos, portugueses, indígenas e até escravizados para expulsar os invasores holandeses nas Batalhas dos Guararapes. O Brasil que não aceitou ser afrontado pelo expansionismo de Solano López e o derrotou definitivamente em Cerro Corá.
É, ainda, o Brasil que apresentou uma das maiores taxas de crescimento econômico do mundo ao longo do século XX. O Brasil de Getúlio Vargas, que recebeu um país dominado pelo latifúndio e por uma economia de baixo valor agregado e estabeleceu as bases de sua modernização industrial. Foi sob Vargas que se estruturaram setores essenciais ao desenvolvimento nacional, consolidaram-se as leis trabalhistas — fortemente influenciadas pela doutrina social católica expressa na encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII —, restaurou-se a presença da educação católica nas escolas e se deu o impulso inicial para aproximadamente cinquenta anos de extraordinário crescimento econômico. Naquele período, o Brasil esteve entre os países que mais cresciam no mundo.
Por fim, há o Brasil do triunfo no futebol. Um esporte trazido por um inglês, Charles Miller, para o divertimento de pequenos círculos das elites paulistana e carioca, mas que logo foi apropriado pelas classes populares e transformado no maior símbolo da presença vitoriosa do Brasil no mundo. Dessas camadas populares surgiu o “Pelé antes de Pelé”, o “Diamante Negro” Leônidas da Silva. Depois veio o trauma de 1950, o Maracanaço. Mas o país, como no refrão de Beth Carvalho, levantou, sacudiu a poeira e deu a volta por cima: conquistou o mundo em 1958, com Didi, Nilton Santos, Zagallo e, evidentemente, aquele que se tornaria o maior de todos, Pelé. O triunfo se repetiria em 1962, 1970, 1994 e 2002.
Essa longa evocação do Brasil que aprendi a amar por meio de sua história, entretanto, fala de um país que parece já não existir.
Não possuímos mais o espírito aventureiro, desbravador e heroico dos tempos dos Guararapes e de Cerro Corá. Tornamo-nos um país dominado pela inércia, pela apatia e pela assimilação de uma anticultura que nos é imposta com o propósito — consciente ou não — de nos infantilizar e idiotizar.
Basta observar a maneira como a atual Copa do Mundo vem sendo tratada pelos meios de comunicação. Os canais adotaram um tom excessivamente brincalhão, infantilizado e abobalhado. Não se trata apenas da CazéTV. Até a antiga emissora do “padrão Globo de qualidade” passou a cobrir a competição com Virgínia, piadas rasteiras e gracejos dignos do humor mais pueril, como se o Brasil fosse composto por duzentos milhões de crianças incapazes de acompanhar uma transmissão minimamente adulta.
Talvez seja isso mesmo que tenhamos nos tornado: um ajuntamento de adultos infantilizados, incapazes de triunfar sobre praticamente qualquer coisa.
Já não triunfamos nem sequer no futebol. Basta olhar para a França, que representa, em muitos aspectos, aquilo que o Brasil de 1994 foi para o seu tempo, ou para a Argentina, que hoje produz e reúne meio-campistas como nós fazíamos em 1958, 1962, 1970 e até mesmo em 1982. Nossa decadência chegou a tal ponto que precisamos admitir algo especialmente doloroso: nem sequer o título de país do maior jogador de todos os tempos podemos reivindicar com a mesma segurança. Lionel Messi tornou-se esse jogador: o mais completo, o mais premiado, o mais recordista e o mais genial da história. É duro admitir, mas essa é a realidade. Hoje, chegamos a discutir seriamente se a Seleção Brasileira ainda está no mesmo nível de Marrocos.
Estamos no fundo do poço.
Nossa classe política é representada por figuras como Nikolas Ferreira, Érika Hilton, Jair Bolsonaro, Lula e Valdemar Costa Neto. E, gostemos ou não, continuaremos sendo reflexo dessa degradação por, talvez, mais cinquenta anos. Assistimos diariamente a escândalos de corrupção dos mais infames: da maior fraude fiscal da história do país ao assalto sistemático contra aposentados e idosos. Enquanto isso, o Judiciário solta os envolvidos, os processos são engavetados e nada acontece.
Também assistimos, inertes e impotentes, à expansão territorial de facções criminosas que, em capacidade financeira, controle territorial e poder de intimidação, rivalizam com algumas das organizações terroristas mais perigosas do mundo. Essas facções avançam quilômetro por quilômetro, ocupando comunidades, bairros, cidades e estruturas econômicas. E, pior, o favorito nas eleições de outubro é um aliado recorrente dessas facções, seja como participe, seja por omissão.
O Brasil talvez seja, entre os países da periferia mundial, aquele em que a agenda identitária e o wokismo mais profundamente se enraizaram, popularizaram e institucionalizaram. Essa agenda avançou tanto por meios legislativos quanto por decisões judiciais: da absurda equiparação da homofobia ao crime de racismo às propostas de criminalização da chamada misoginia, que chegam a ultrapassar aquilo que foi adotado em países como Canadá, Suécia, Alemanha ou Inglaterra — sociedades nas quais o feminismo e o ativismo LGBT adquiriram, em determinados círculos, características quase religiosas.
O conjunto dessas transformações está tornando o Brasil praticamente inviável para a constituição de famílias. Gerações inteiras são empurradas para o celibato involuntário, para relações efêmeras, para a promiscuidade estimulada pela pornografia ou para a mercantilização do sexo. Casar-se e formar uma família passou a ser percebido por muitos homens como um risco existencial, patrimonial e jurídico. Consolidou-se a impressão de que basta uma acusação ou um conflito doméstico para que alguém possa ser publicamente condenado e submetido ao poder coercitivo do Estado antes mesmo de exercer plenamente seu direito de defesa.
A família também já não possui liberdade efetiva para educar seus filhos segundo uma formação tradicional e católica, seja dentro de casa, seja em uma escola criada para essa finalidade. O Estado está sempre presente: para punir os pais, investigar a família ou fechar uma instituição de ensino sob a acusação de que ela não seguiu as normas de "inclusão e de discussão de gênero" previstas na Base Nacional Comum Curricular.
Para além de tudo isso, fomos o país catequizado pelos jesuítas — infelizmente expulsos por ordem do marquês de Pombal, episódio que talvez represente uma das origens mais distantes de nossa desgraça espiritual — e formado moralmente pelos sermões do padre Antônio Vieira. Hoje, o Brasil já nem sequer pode ser considerado verdadeiramente católico.
O país passou a ser dominado por denominações protestantes importadas, muitas delas surgidas ou impulsionadas por projetos missionários estadunidenses vinculados à expansão cultural e geopolítica dos Estados Unidos na América Latina. Aquilo que durante séculos constituiu a unidade espiritual do povo brasileiro foi gradualmente substituído por seitas profundamente fragmentárias, teologias da prosperidade, espetáculos religiosos e organizações empresariais da fé, que atualmente exercem influência de uma ponta à outra do país.
Da forma como o wokismo e o evangelicalismo importado dominou o país, é evidente que o Brasil se reduziu a laboratório de engenharia social das potências ocidentais
Na economia, saímos da condição de uma das nações que mais cresciam no mundo para nos transformarmos no país do rentismo, da especulação financeira e de algumas das maiores taxas de juros reais do planeta. Nossas riquezas minerais, nosso território e nosso potencial produtivo são continuamente sabotados ou subordinados a interesses estrangeiros. As duas forças políticas dominantes disputam não um projeto nacional autônomo, mas a qual potência estrangeira o Brasil deverá servir, entregando nossas riquezas em troca de benefícios políticos e econômicos que não correspondem aos interesses do povo brasileiro.
Daquele Brasil que amo, quase nada parece ter sobrevivido. Ainda existem alguns resquícios nos rincões, nas pequenas cidades e nos interiores mais profundos, mas são apenas isso: resquícios. A degradação, quando ainda não chegou diretamente a esses lugares, já alcançou as cidades vizinhas e, cedo ou tarde, também os alcançará.
Não acredito em solução meramente eleitoral. Não acredito em solução de curto prazo, de médio prazo e, sinceramente, nem mesmo de longo prazo. Não há uma restauração em andamento. Não existe sequer um projeto embrionário de reconstrução daquele Brasil. O país parece condenado a uma decadência permanente, administrada por diferentes grupos que se revezam no poder sem alterar os fundamentos de nossa ruína.
Até pouco tempo atrás, meu nacionalismo chegava ao ponto de me fazer condenar qualquer pessoa que falasse mal do Brasil ou manifestasse o desejo de deixar o país. Às vezes, ainda critico quem pensa assim. Contudo, preciso admitir que, no fundo, também carrego esse desejo.
Quero ser pai. Quero me casar e formar uma família. E, por mais doloroso que seja confessá-lo, já não sei se quero construí-la no Brasil.