Opinião

Silvio Almeida e o identitarismo masculino

A reação de Silvio Almeida às acusações feitas por Anielle Franco revela mais do que uma defesa pessoal: expõe o surgimento de uma possível linguagem identitária masculina dentro da própria esquerda. Ao mobilizar a figura do homem negro como vítima de perseguição política, racial e jurídica, o caso sugere como o feminismo identitário pode acabar produzindo, como resposta, um identitarismo masculino moldado pela mesma lógica de fragmentação, vitimização e disputa por reconhecimento.

EPor Eduardo Carvalho
1 de abr. de 202618 Visitas
Silvio Almeida e o identitarismo masculino

Recentemente, o ex-ministro dos Direitos Humanos do governo Lula, Silvio Almeida publicou um vídeo no seu Instagram em que se pronuncia após as acusações de assédio sexual feitas pela ministra Anielle Franco. No vídeo, Almeida sustenta que estaria sendo alvo de uma perseguição e sugere que a denúncia teria também uma dimensão política: a de eliminar um adversário e, ao mesmo tempo, mobilizar a bandeira da violência contra a mulher para fins eleitorais e de posicionamento público. 

Mas o ponto mais interessante da fala talvez não esteja nem mesmo na acusação de perseguição política em si. O aspecto mais revelador aparece no discurso que vem depois disso: a mobilização de uma linguagem identitária centrada na figura do homem negro como vítima social, como alvo preferencial de estruturas de opressão, punição e deslegitimação. 

O que se vê emergir é algo que já poderia ser antecipado, não por qualquer pretensão profética, mas por simples coerência analítica: o feminismo identitário e suas leis profundamente misândricas tendem, inevitavelmente, a produzir, como reação, uma forma de identitarismo masculino em homens de esquerda como Almeida. Um identitarismo moldado precisamente pelos mesmos vícios, categorias e ressentimentos do identitarismo feminista. Em outras palavras: quando toda a vida social passa a ser lida por meio da lente da identidade, da opressão específica e da disputa entre grupos concorrentes por reconhecimento político, torna-se apenas uma questão de tempo até que homens passem também a reivindicar para si a condição de grupo oprimido, com linguagem, símbolos e reivindicações próprias. 

Isso se torna ainda mais visível no campo da esquerda, onde esse vocabulário já está plenamente consolidado. O identitarismo raramente permanece uno; sua lógica natural é a fragmentação. Dentro do feminismo, por exemplo, não existe uma unidade real, mas uma multiplicação de recortes, subgrupos, ênfases e antagonismos: fala-se em feminismo negro, feminismo lésbico, feminismo radical, feminismo liberal, além das tensões com a pauta trans e com aquilo que se convencionou chamar de feminismo “cis”. Cada fração reivindica um lugar próprio de fala, uma forma particular de opressão e, muitas vezes, uma hierarquia moral diante das demais. 

Ora, se essa gramática se consolidou como linguagem legítima de disputa pública, por que ela não seria apropriada também por homens, sobretudo por homens de esquerda, formados no mesmo ambiente retórico? O homem não esquerdista, quando reage ao avanço das leis feministas, geralmente se refugia em universos como a redpill, o MGTOW e outras formas de reação masculina. Já o homem de esquerda não recorrerá, em regra, a esse repertório. Ele tende a fazer outra coisa: traduzirá sua revolta para o idioma do próprio progressismo. 

É justamente isso que poderemos ver emergir. Em vez de rejeitar a lógica identitária, ele a reproduz e a desloca. Em vez de negar o vocabulário da opressão, ele o adapta. Em vez de atacar frontalmente a cultura woke, ele passa a reivindicar para si um lugar dentro dela. Surge, então, a possibilidade de um discurso em que o homem aparece como vítima não apenas por ser homem, mas por ser um homem inserido em categorias específicas de vulnerabilidade simbólica — e, no caso em questão, sobretudo por ser um homem negro. 

Um deslocamento que permite combinar duas chaves retóricas extremamente poderosas no debate contemporâneo: a denúncia do punitivismo moral e jurídico e a denúncia do próprio conceito picareta e sem lastro social de Almeida, o racismo estrutural. Assim, uma acusação feita por uma mulher contra um homem negro deixa de ser vista apenas no plano da relação entre os sexos e passa a ser reinterpretada, por esse novo enquadramento, também como possível instrumento de reprodução racial da suspeita, da criminalização e da destruição pública. O homem negro, nesse discurso, é convertido em símbolo de uma vulnerabilidade social específica, que teria no Estado, na imprensa e nas redes sociais seus mecanismos de amplificação. 

A ideia de que existiria um regime jurídico e moral ginocêntrico, inclinado a validar automaticamente a palavra feminina e a transformar o homem em suspeito imediato, presente em grupos redpills, o que não está errado, ganha então um novo adorno no esquerdismo: o de que, quando o homem acusado é negro, essa engrenagem não seria apenas sexista ou desequilibrada, mas também racialmente enviesada. A falsa acusação, nesse contexto, passa a ser denunciada não só como injustiça contra um homem, mas como uma forma de racismo operando por vias morais e institucionais. 

Esse identitarismo canalizaria a revolta masculina não fora do identitarismo, mas dentro dele.