Vídeo de apresentação da nova camisa da Seleção Brasileira e a romantização da favela
A nova campanha da CBF e da Nike para o uniforme da Seleção Brasileira na Copa de 2026 gerou críticas por reforçar uma estética que romantiza a pobreza, a vulgarização e a degradação social como símbolos da identidade nacional. O vídeo transforma miséria, violência e desordem em vitrine cultural, projetando ao mundo uma imagem caricatural e moralmente degradada do Brasil.

A CBF e a Nike apresentaram o novo uniforme da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo de 2026. No vídeo de divulgação, reproduz-se a estética que vem se disseminando, interna e externamente, como representação simbólica e cultural do Brasil. Favelas — locais marcados pela insalubridade, pela ausência de saneamento básico, por fios elétricos espalhados e por cenários de extrema pobreza —, funk, jovens vestidas com roupas imodestas e seminuas, reafirmando a crença de que o Brasil seria um ambiente fértil para o turismo sexual: enfim, a degradação completa romantizada, exposta como se fosse a essência do país e como uma realidade não a ser combatida, mas, ao contrário, valorizada.
A cultura da degradação, financiada em muitos casos por esquemas de lavagem de dinheiro ligados ao narcotráfico, em um país com altíssimos índices de violência, e difundida por agentes que, direta ou indiretamente, fomentam essa mesma violência, é o cúmulo do absurdo. Exporta-se isso para todo o Brasil e vende-se a imagem do país no exterior por meio de uma realidade que, assustadoramente, é romantizada pelo ideal de um “favelismo cultural”, sobretudo no Rio de Janeiro.
Não se vê o mesmo, por exemplo, em São Paulo, onde muitas manifestações culturais ligadas à periferia são, em ampla medida, de contraposição àquela realidade, de denúncia, de enfrentamento e de crítica social. Uma das bandas de rap mais populares do Brasil, os Racionais MC’s, já expõe no título de um de seus álbuns — Sobrevivendo no Inferno — aquilo que, de fato, representa a vida na favela para milhões de brasileiros: sofrimento, medo, violência, ausência do Estado e luta cotidiana pela sobrevivência.
Já o favelismo carioca, em muitos de seus produtos de exportação, assume um tom romântico. Tão romântico que existem, inclusive, agências de turismo voltadas para a Rocinha, com páginas em múltiplos idiomas, como se a miséria urbana, a precariedade e a presença do crime organizado fossem elementos exóticos, pitorescos ou atraentes para consumo estrangeiro. Trata-se de uma inversão moral e cultural gravíssima: aquilo que deveria causar escândalo passa a ser vendido como identidade nacional.
O problema se agrava quando instituições de grande alcance simbólico, como a própria Seleção Brasileira, passam a aderir a esse tipo de linguagem estética. A camisa da Seleção não representa apenas uma equipe de futebol; ela representa, para o mundo, uma nação inteira. Por isso, a escolha dos símbolos associados à sua divulgação não é algo neutro. Há uma mensagem embutida. E, nesse caso, a mensagem parece ser a de que o Brasil profundo, autêntico e digno de exibição internacional é precisamente o Brasil da decadência social transformada em vitrine cultural.
Isso revela também uma crise de imaginação das elites culturais e publicitárias. Um país de proporções continentais, de riqueza histórica, artística, arquitetônica, religiosa e natural imensa, acaba reduzido, mais uma vez, aos mesmos clichês degradantes: erotização vulgar, apologia indireta à precariedade, estetização da pobreza e celebração de ambientes dominados pela desordem. Em vez de projetar um Brasil elevado, belo, civilizado e aspiracional, insiste-se em reafirmar internacionalmente a caricatura mais baixa e deformada da nação.
O vídeo: