"Vítimas dos Narcisistas": a nova identidade fomentada nas redes sociais
O novo identitarismo em curso é dos que "sofreram na mão de narcisistas". E nesse nicho há os que foram vítimas de pais, mães, esposos, amigos ou chefes narcisistas,

O identitarismo vai, cada vez mais, se consolidando como a chaga social do século 21. Ao mesmo tempo que ele é efeito ou fruto da fragmentação das relações sociais pelo hiper capitalismo que, ao estimular nichos culturais terminam criando novos "segmentos sociais", os movimentos identitários também atuam como causas da crise pois contribuem para acelerar o caos e dissolver a sociedade impedindo uma sua coesão mínima, causa central por trás da dificuldade de mobilizar as pessoas em torno de temas comuns para resolver problemas reais da política, economia, sociedade e cultura, fixando o indivíduo em aspectos parciais da existência humana, frequentemente ligados a vivências pessoais trágicas que criam uma identificação pela "dor e coitadismo"
Ultimamente as redes sociais, notadamente o Instagram, foi invadido por um "tsunami" de influenciadores no assunto. Por narcísico eles subentendem qualquer pessoa que tente exercer poder, controle, projetando-se no outro, etc. A definição de narcisismo e narcisista, entre os especialistas de plantão, é tão ampla, que dá para encaixar muita coisa. E claro, para curar aqueles que foram vítimas de narcisistas existem os cursos pois trata-se de um negócio, um mercado. Na Narcisosfera, chamou-nos atenção a influencer Simone Velloso, dona da página "Narciso, seu espelho quebrou". A mesma declara-se formada em psicanálise e pós graduada em "psicologia positiva". Na publicação "narcisistas na velhice", a psicanalista em tela chega ao ponto de insinuar que "não é dever dos filhos cuidar dos pais na velhice caso estes tenham sido narcisistas". Numa de suas publicações de Instagram ela diz que "narcisistas insultam de todas as formas", uma afirmação genérica que serve para fazer a audiência acordar para supostos sintomas que poderiam estar passando desapercebidos. A estratégia é similar a das feministas radicais quando diabolizam qualquer expressão de ciúme masculino como potencial feminicídio. Partindo destes pressupostos abertos, imprecisos, sem o mínimo rigor, já podemos imaginar filhos arrumando laudos psicológicos com os psicanalistas de Instagram para se eximir de cuidar dos genitores alegando traumas relacionados à conduta narcisista destes, cônjuges se valendo de alegações vagas sobre a conduta narcísica dos seus parceiros para legitimar divórcios, anulações de matrimônio e indenizações.
Conflitos familiares normais se transformam em narcisismo e o narcisista, automaticamente, passa a carregar todas as culpas pelos problemas e fracassos dos filhos, empregados, mulheres, etc. Os influenciadores em tela produzem uma quantidade inumerável de vídeos diários que visam "iluminar os cegos" para a realidade do narcisismo:
"quem sabe teu pai ou mãe não foram narcisistas contigo? Descubra através de cinco sinais".
E vídeos de dois minutos passam a bastar para determinar um diagnóstico que pode ser fatal caso a pessoa que segue esses influenciadores decidam levar a questão para dentro da família, sem antes procurar um especialista sério, capaz de determinar a presença de um transtorno narcisista e de dar um encaminhamento responsável ao problema em vista de delicadeza do tema e seus impactos. Transformar todo conflito familiar nisso é perigoso, sobretudo por que o tom dos influenciadores em tela não é de quem aborda o problema do ponto de vista psicológico ou psiquiátrico mas sim do moral, na medida que o narcisista é tipificado como o "vilão" em vez de alguém doente, o que leva-nos a considerar que trata-se de mais um desdobramento da filosofia pós moderna que busca atomizar o sujeito dissolvendo o conceito tradicional de família que, na psicanálise, base de onde partem muitos destes influenciadores, sempre foi apresentada como fator de neuroses e patologias psíquicas; ideias como família tóxica são tópicos centrais das intervenções destes influenciadores que exploram a frustração de pessoas com seus genitores, etc. Será que por trás da enxurrada de conteúdo dessa natureza nas redes sociais estariam as forças politicas e econômicas interessadas na tal sociedade aberta? Ou trata-se tão só de um modismo que vai passar? É algo a investigar.